Para além do escultor

O Abandonado, 1882

António Soares dos Reis foi um marco na escultura portuguesa. A afirmação parece um cliché, no entanto, olhando ao parco panorama da escultura produzida em Portugal na 2ª metade do século XIX, verificamos que o artista gaiense fez parte dum núcleo muito restrito, do qual sobressaem poucos mais nomes do que o de Vítor Bastos ou Alberto Nunes.

 As obras que nos legou são de uma qualidade e beleza inegáveis, assim como a sua capacidade única de conseguir retratar para além do visível, projectando na obra a personalidade dos vultos que representou. Quem vê O Desterrado quase espera que ele se levante do rochedo e siga o seu caminho. Em relação à obra que representa o Conde de Ferreira acreditamos que se baixe e nos estenda a mão para nos cumprimentar. Já o Abandonado temos vontade de pegar nele e levá-lo.

Soares dos Reis conseguia, como ninguém, dar uma dimensão humana às suas obras, quer pela qualidade da execução quer pela alma que lhes conseguia atribuir, características que fizeram dele um artista ímpar. Só isto bastaria para que merecesse ser recordado e apreciado, mas o seu lado de escultor era um dos muitos que o artista possuía e que faziam dele um personagem extraordinário.

Nas suas actividades de homem comum encontrava alegria nas mais pequenas e variadas coisas. Tinha uma outra paixão além das belas artes,  à qual dedicava muito do deu tempo e afeição, a jardinagem. O seu sonho era ter, junto à casa, um jardim onde pudesse cultivar as suas flores, que tratava com verdadeiro carinho.

No seu jardim, que o próprio delineou, encontravam-se os mais variados tipos de flores que partilhavam o espaço com inúmeras árvores de fruto sem esquecer as suas tão apreciadas alcachofras e os predilectos acantos. 

Na rua Pinto de Aguiar, à entrada da Quinta do Cedro, havia um jardim que foi delineado por Soares dos Reis que, terá projectado também, o jardim da vivenda do pai de um seu amigo, conhecido por Cunha da Raza. O gosto era tal que, amiúde, na companhia do seu amigo Diogo José de Macedo, fazia digressões pelos campos de Vila Nova de Gaia, à procura de fetos e miosótis.

 

Jardim da casa-oficina de António Soares dos Reis

Apesar do pouco que tirava dos seus trabalhos como escultor e do baixo ordenado que recebia enquanto professor na Academia, sempre que conseguia juntar algum dinheiro usava-o para comprar aos seus colegas obras de arte com que, todo satisfeito, decorava as paredes dos seus modestos aposento. Esta sua faceta Humanista era bem conhecida dos seus colegas e amigos, tantas foram as vezes que a puderam apreciar.

Se havia assunto que era caro ao escultor era a dinamização das artes e do seu ensino, assim como um maior reconhecimento para os artistas portugueses e as suas obras. Foi nesse sentido que Soares dos Reis se envolveu em inúmeros projectos, uns mais frutíferos que outros, conseguindo fazer pela arte portuguesa mais do que até então alguém havia feito. Na sua actividade enquanto professor na Academia Portuense de Belas Artes tentou, por várias vezes, aplicar programas de melhoria que aperfeiçoassem o ensino na Academia quer para os docentes quer para os discentes. O que não conseguiu realizar na Academia procurou fazê-lo com a criação de um Centro Artístico (o C.A.P.), juntamente com outros e artistas e estudiosos, e, na sequência deste, uma revista exclusivamente dedicada às Belas Artes (Arte Portugueza). Além da participação nesta revista participou também, enquanto repórter artístico, na revista O Occidente.

Revista “A Arte Portuguesa”, n.º 1

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Execução do projecto do arquitecto José Geraldo Sardinha

Quando mudou a sua oficina para a Rua Luís de Camões, Soares dos Reis fê-lo para estar mais perto da família, nessa época composta de seus pais e de sua irmã Engrácia.

A casa acabou por ficar à beira da rua, mas pelo primeiro projecto, deveria ter sido construída no meio de um parque ajardinado. Desse primeiro projecto, casa e jardim, existe um croqui que ele próprio desenhou, a pedido do amigo Diogo José de Macedo Júnior, numa pequena folha de papel quadriculado, que muito possivelmente corresponde ao que se encontra hoje no MNSR.

Croqui da casa desenhado por Soares dos Reis (N.º Inv. 32069 TC)

Escolheu um terreno na Rua Luíz de Camões, em Vila Nova de Gaia, do lado que desce para o rio, embora muito longe deste, mais próximo do que é hoje a Avenida da República, e deixou o projecto a cargo do arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906), seu antigo companheiro de pensionato em Paris e amigo de longa data. Os documentos mais antigos a respeito desta casa remontam a 1876 e referem-se ao projecto da casa-oficina que Soares dos Reis apresentou à Câmara em sessão de vereação, a 25 de Agosto de 1876, e o alvará com que a mesma autorizou a construção do edifício. É de notar que o projecto da referida casa-oficina foi encontrado nos anos quarenta do séc. XX, nos Arquivos da Câmara de Gaia, conforme nota do Jornal de Notícias de Junho de 1944:

Aquando a mudança do arquivo foi encontrado o projecto da casa-ofícina do artista, feito por ele próprio. Esse projecto fora presente em sessão da vereação de 25 de Agosto de 1867 [1] (SIC),   merecendo a aprovação da Câmara, pelo que além da assinatura do seu autor, tem a assinatura de todos os vereadores.

A casa-ofícina a que o projecto se refere diz respeito foi edificada na rua Luís de Camões.

A dita casa já deu origem a várias discussões, aventando-se que o Município deveria interessar-se pela sua aquisição.

 Desde então o seu paradeiro voltou a ser desconhecido, tendo sido precisamente através dessa notícia que se tomou conhecimento da data exacta em que o projecto foi sujeito à sessão de vereação.

Sobre a casa propriamente dita, a descrição mais antiga que encontramos é de 1889 do Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista onde segundo as palavras do Dr. Alves Mendes:

A casa no final do séc. XIX

O atelier compunha-se de três corpos interiores. O central, vasto e desafogado, para o trabalho; o da esquerda, dividido em pequenos compartimentos, para habitação; e o da direita, que nunca chegou a concluir-se, destinou-se promiscuamente a armazem, galinheiro e pombal. Nas trazeiras, em um pedasso de terreno, dispôs um pequeno jardim em que as flores os arbustos se entremeavam com os frutos e com grandes pés de alcachofras (legume pelo qual tinha especial predilecção). (…) A jardinagem era uma das suas paixões.A entrada para o atelier abria-se, pelo lado do jardim. Era junto dessa entrada que se viam, meias envoltas pelas heras, as pedras da interessante janela de estilo romanico, que pertencera ao velho edifício que existia na rua da Reboleira e que foi destruido para a abertura da rua Nova Alfandega… Quando a casa foi demolida, comprou por alguns vintens a  janella e levou-a para casa.Interiormente o atelier nada oferecia de extraordinário. Nem luxos de decoração, nem abundancias de objectos de arte. A simples oficina de um trabalhador.O atelier comunicava por uma porta com a casa de habitação. Uma sala de visitas, o quarto de dormir, a cosinha, e a sala de jantar. Tudo ao rés do chão e de pequenas dimensões. Era por esses aposentos que se achavam disseminados os quadros, os desenhos, as aguarelas e os medalhões que Soares dos Reis adquirira em algumas exposições artisticas, ou que lhe haviam sido oferecidos por amigos. Entre essas obras de arte avultavam o seu retrato, pintado por Marques de Oliveira e um outro retrato em medalhão, modelado pelo escultor Simões de Almeida e reproduzido em bronze pela galvanoplastia. Muitos dos quadros que ornavam as paredes comprára-os Soares dos Reis nas exposições de belas artes realizadas “n’esta cidade”. O aumento da família sugeria-lhe a ideia de erguer mais um andar ao atelier.[2]


[1] A data correcta é 1876, terá sido erro do jornalista ou erro de impressão.

[2] Dr. Alves Mendes (1889), Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista; pp. 25 e 26.

Trabalhos de António Soares dos Reis (1861-1867)

Trabalhos de António Soares dos Reis enquanto aluno da Academia Portuense de Belas Artes:

1861

Cabeça de VelhoFoi com esta obra que conseguiu a aprovação no 1º ano de escultura.

1862/3

Fauno Escultura, a partir de uma obra de gesso, realizada para o exame de 2º ano, à qual a Academia atribuiu um elogio.

1865

AcademiaCópia do natural, executada em barro, para o exame do 4º ano. Também esta obra foi alvo de elogios.

1866

Viriato – Estátua em gesso realizada como prova de conclusão da formação na Academia,para a cadeira de escultura.

Hércules esmagando entre os braços o gigante Anteo –  Baixo-relevo em barro que, em conformidade com os estatutos, realizou em apenas 3 horas e em gabinete fechado.

Hércules esmagando entre os braços o gigante Anteo, 1866

186*

Lima e Costa (cirurgião militar)Busto, em barro cozido, realizado sob a direcção de António Luís da Silva Cruz com quem fez alguns ensaios em escultura, como formação extra curricular. No período em que frequentava a A.P.B.A.

186*

CristoCom 40 cm de altura, também este trabalho foi realizado sob a direcção de António Luís da Silva Cruz, nas mesmas condições que o anteriormente referido.

1867

Firmino Este busto, cujo modelo, Firmino, era seu colega na Academia, serviu como prova para o concurso de Pensionista do Estado. Alguns críticos deram a esta obra o título de “Desafio” já que consideravam tratar-se de “uma escultura com alma, de grande riqueza interior, patente não só na firmeza do olhar como na posição oblíqua, muito diferente dos cânones tradicionais, a demonstrar um conceito estético diferente daquele que tinha aprendido com os seus mestres.”[1].

1867 - 17367.01 TC -

Firmino – 1867

Academia– Também como prova para pensionista do Estado. Trata-se de baixo-relevo modelado em pelo natural.

Mercúrio adormecendo Argos ao som de uma flauta– Esboceto em baixo relevo realizado em gabinete fechado,  também serviu de prova para o concurso de Pensionista.

Mercúrio e Argos, 1867


[1] M. Silva (1889), A Modernidade na Arte de Soares dos Reis, B.A.C.A.G., p. 5

Roma

Roma (1871-1872)

Após o abandono forçado de Paris, os pensionistas, quer de Lisboa quer do Porto, viram aprovado o pedido de continuação, desta vez em Itália, do restante período do pensionato que tiveram de interromper. Foi a 17 de Janeiro de 1871 que Soares dos Reis chegou a Roma, instalando-se no Instituto de Santo António dos Portugueses, onde veio a encontrar Miguel dos Santos e Simões de Almeida (1844-1926).

Miguel dos Santos e Simões de Almeida eram ambos escultores. O primeiro havia ido para Roma em 1869 onde vivia sem qualquer apoio ou subsídio do Estado, subsistindo, com grande sacrifício, com os prémios que anualmente lhe dava a Academia. Já José Simões de Almeida fora para Itália nas mesmas circunstâncias que Soares dos Reis, como pensionista fugido da guerra em França.

Em Roma não frequentou nenhuma Academia, nem trabalhou sob a orientação de qualquer mestre. É o próprio Soares dos Reis que, na sua autobiografia, nos esclarece sobre este assunto ao informar que: Conquanto me fosse indicado o distincto estatuário Jiulio Monteverde para meu professor, nunca trabalhei sob a direcção d’elle.

Mas não foi por isso que trabalhou menos, já que segundo o Mons. José de Castro no seu artigo Soares dos Reis em Roma, o autor refere: O Conde de Tomar admirava-se daquele rapaz que trabalhava sem repouso, que fazia e desfazia, com alternativas de exaltação e abatimento, de prazer e desgosto, sempre insatisfeito dos resultados obtidos. Os admiradores correm a santo António, com grande vaidade para o Conde de Tomar. Aquele rapaz de 24 anos impressionara o ambiente artístico.

Em Roma começa a sua estátua O Desterrado que, depois de modelada, deixou em Roma, partindo para visitar outras terras italianas. Segundo o escultor Diogo de Macedo (1889-1959), esta sua saída de Roma deveu-se ao facto de que com a modelação do Desterrado Soares dos Reis Tinha desabafado uma grande mágoa e precisou de ir respirar novos ares.

O Desterrado, 1872

Nos últimos meses de 1871 foi informado de que as verbas dadas aos pensionistas, que se encontram no estrangeiro, iriam ser suspensas e que estes deveriam regressar a Portugal até ao fim do mês de Outubro ainda desse ano. Para tal seria concedido, a cada um deles, a soma de sessenta mil reis para que pudessem fazer a viagem de regresso. Esta nova realidade apresentava-se como um enorme problema para Soares dos Reis, que já tinha gasto tudo o que recebera na aquisição do mármore para a realização d’O Desterrado e das obrigações que contraíra com o mesmo. Além disso, também já tinha dado início ao desbaste da peça e não a conseguiria terminar em tempo útil para cumprir as novas directrizes. Perante tal situação, e sem saber como proceder, pediu ao seu amigo Conde de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), que fora quem o informara da situação, ajuda sobre como proceder. Este aconselhou-o a escrever, de imediato, à Academia de Belas Artes solicitando que o seu caso fosse apresentado ao Corpo Académico e ao Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), na esperança que estes pudessem interferir na decisão tomada pela Comissão Financial do Governo Português em Londres.

Entretanto, Soares dos Reis, foi vivendo conforme pode, com o pouco que lhe restava, até que, muito possivelmente graças à interferência do Conde de Tomar, lhe aprovaram o prolongamento da estadia em Roma, recebendo novos subsídios para a conclusão da obra final como pensionista.

Com o prazo alargado, mas ainda assim impossível de satisfazer, não conseguiu terminar a obra em Roma enviando-a, ainda inacabada, para a Academia Portuense de Belas Artes. Como auxílio para a finalizar tirou moldes, ao natural, do modelo vivo, deixando os gessos em Santo António dos Portugueses. Esta é a versão mais divulgada, aparecendo em quase todas as biografias do artista, no entanto, Mons. José de Castro, no artigo Soares dos Reis em Roma, com o qual participa na obra de homenagem Soares dos Reis: in Memoriam, conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos, dando a entender que o escultor teria conseguido terminar a obra ainda em Roma enviando-a, já concluída, para a A.P.B.A.

A família, em Portugal, saudosa, insistentemente enviava correspondência expressando desejos de um breve regresso que o levasse de volta ao seio familiar. Mas, aparentemente, Soares dos Reis ficou verdadeiramente enamorado por Roma e era seu grande desejo poder permanecer na cidade que tanto lhe mostrou e ensinou, nas visitas aos seus museus e recantos históricos. Aproveitou os dias que lhe faltavam a tracejar, no seu álbum de apontamentos, as velhas ruínas históricas de que Roma é abundantemente rica.

Os últimos tempos de pensionato, já depois de enviar o mármore para a Academia, foram a “esticar” ao máximo os recursos que lhe restavam de forma a prolongar, tanto quanto fosse possível, a sua estadia naquele país. Antes de voltar para Portugal aproveitou ainda para ir visitar Florença, Nápoles, Pompeia, Poesteum, Sorrento e desta, para Capri. Em Capri tirou minuciosos apontamentos de rochas e ondas, que veio a utilizar na conclusão d’O Desterrado. De regresso a Portugal, com as suas economias, voltou a Paris, e de lá, foi até Londres. Ao retornar de Londres passou ainda por Lyon, Arles, Nimes e Marselha. Na passagem por Espanha passou ainda por Madrid e já em Portugal visitou Lisboa antes de chegar a Gaia, no início de Setembro de 1872.


Paris

1867 - 17367.01 TC -

O Busto de Firmino, 1867

Paris (1867 – 1870)

Tinha Soares dos Reis terminado os estudos na A.P.B.A., em Agosto de 1867, quando abriu o concurso para pensionista do Estado no estrangeiro. Concorreu à bolsa de escultura, tendo ficado aprovado, por unanimidade, em 31 de Agosto de 1867.

Ainda que não tenha havido outros concorrentes à bolsa de escultura, teve que se submeter à realização de várias provas, as quais consistiram na modelação de uma cabeça pelo natural (Busto de Firmino), uma figura de tamanho natural (Academia), um baixo-relevo (Mercúrio adormecendoArgos ao som de uma Flauta) e um esboceto sem modelo (sem mais informação), feitos em gabinete fechado.

Saiu de Vila Nova de Gaia no dia 27 de Outubro de 1867 e chegou a Paris a 6 de Novembro do mesmo ano, onde viveu durante os três anos seguintes, até ser obrigado a partir por causa da guerra franco-prussiana. Acompanhou-o para Paris, também na qualidade de bolseiro, mas de arquitectura, o seu colega e amigo José Geraldo da Silva Sardinha.

Soares dos Reis levava dois objectivos: a admissão no atelier de Jouffroy, a quem ia dirigido, e a admissão na École Imperiale et Speciale des Beaux Arts (E.I.S.B.A.). Ambos os objectivos foram difíceis de alcançar, o primeiro demorou pouco menos de 3 meses e o segundo só o viu concretizado mais de um ano após a sua chegada.

Os ateliersdos mestres pertenciam à E.I.S.B.A. e por isso, para que um aluno estrangeiro pudesse ser admitido num desses ateliers, era necessária a permissão do superintendente da escola. O Ministro de Portugal em Paris fez chegar à

E.I.S.B.A. uma petição para que Soares dos Reis pudesse ser admitido no atelier de Jouffroy, mas a mesma teve resposta negativa: foi alegado que o número de lugares estava já completo e por isso não podiam ser admitidos mais alunos. Como última solução, o futuro escultor acabou por pedir a intercepção do próprio Jouffroy junto à E.I.S.B.A.  para que fosse dada  premissão ao aluno de frequentar o seu atelier.  Jouffroy assim o fez, pediu pessoalmente junto ao superintendente da Escola, pela admissão de Soares dos Reis, e a resposta foi positiva. O bolseiro pode começar a frequentar o atelier a partir de 14 de Janeiro de 1868.

Ainda nesse ano concorreu para ser admitido como aluno da E.I.S.B.A., mas sem sucesso. Só no ano seguinte conseguiria a tão almejada admissão.

Durante o período em que esteve à espera de ser admitido aproveitou para visitar museus, igrejas, ruínas e todo e qualquer local onde houvesse uma peça de arte, assimilando tudo o quanto podia, tirando anotações e copiando para o seu caderno, de modo a enriquecer os seus conhecimentos e aumentar a sua sensibilidade . Um dos acontecimentos que mais o impressionou foi a abertura do SALON de 1868.

Quando finalmente, em Abril de 1869 foi admitido na E.I.S.B.A., nas discíplinas de Desenho e Escultura, passou a ter como mestres Ivon no desenho; Jouffroy na escultura e Taine professor de Filosofia da Arte e mestre do positivismo.

Após a admissão,  conseguiu um excelente aproveitamento obtendo várias distinções: o 1º lugar do concurso de recepção em escultura (na sua 3ª participação neste concurso); duas 3as medalhas em concurso de escultura do vivo e do antigo; 3ª e 2ª em concursos de desenho pelo vivo (únicos prémios que se concediam nesses concursos) e um 1º prémio pecuniário de 300 francos na exposição anual dos trabalhos dos alunos da escola.

Para além de numerosos prémios foi conquistando a admiração de mestres e colegas que lhe chamavam Voleur de prix, numa expressão brincalhona mas ao mesmo tempo admirativa. Neste período executou obras de relevo como Le tireur d’ épines (1869)  e O Pescador (1870) que, apesar de serem ainda muito académicos, já mostravam traços do grande escultor que se tornaria Soares dos Reis.

Quando, em 1870, começou a guerra franco-prussiana, os alunos das Academias de Belas Artes, quer de Lisboa quer do Porto, que se encontravam como bolseiros em Paris, viram-se obrigados a regressar ao país. No entanto, não sem antes procurarem uma solução para que o pensionato não cessasse com o abandono do país em que se encontravam.

No regresso a Portugal, demorou-se em Bayonne, à espera do comboio, e aproveitou esse tempo para desenhar a paisagem que avistava – uma fortificação vista da ponte de Adour – num cartão de visita que trazia consigo. Mas vivia-se então um período de conflito bélico e todo o cuidado era pouco, ou pelo menos assim pensaram os guardas franceses que tomaram o escultor por espião e o levaram preso! Não tardou que o mal-entendido se esclarecesse e em poucas horas a sua inocência fosse provada, mas até lá ficou a ferros, na cadeia de St. Esprit

Le Tireur d’épines, 1869

De regresso a Portugal instalou-se em Vila Nova de Gaia, onde permaneceu cerca de dois meses até partir, novamente como bolseiro, para Roma.

Sobre a estadia de Soares dos Reis em Paris é frequente os autores afirmarem que lhe foi penosa, conclusão a que poderão ter chegado por duas vias: a primeira terá sido à força de tantas vezes verem essa afirmação repetida, ainda que sem a justificarem; a segunda à custa da interpretação de uma carta que, o então bolseiro, enviou para a A.P.B.A. onde usa expressões como: Julgava então mais curto e menos árduo o caminho, que tinha a percorrer, cria-o ameno e sem espinhos. Em breve se desfez tão fagueira illusão, sucedendo-lhe a agra verdade, que poz a descoberto a vereda necessária . No entanto, se analisarmos melhor essa carta, assim como as outras que existem desse período, podemos perceber que este seu descontentamento poderá não ser para com a cidade mas sim com as dificuldades que encontrou para conseguir entrar, primeiro, no atelier de um dos mestres da E.I.S.B.A. e, depois, como aluno ordinário da própria escola. Na carta que envia à A.P.B.A., após ter finalmente conseguido entrar na E.I.S.B.A., Soares dos Reis diz: Foi pouco o tempo para me habituar às exigencias dos concursos e tirar d’elles os devidos resultados; porem espero, se me fôr concedido por mais tempo a permissão de aqui ficar, colher valiosos fructos no caminho que apenas encetei, o que leva a crer que, resolvida a questão da Escola havia, por parte dele, o desejo de permanecer na cidade, o que não aconteceria caso esta lhe fosse desagradável. Além do mais, quando regressou a Portugal após o fim do pensionato em Roma, aproveitou para visitar vários locais, entre os quais Paris e, anos mais tarde, quando teve novamente oportunidade de viajar para fora do país, um dos locais que decidiu rever foi a cidade das Luzes, onde participou na Exposição Universal de Paris de 1878 com a estátua O Artista na Infância e o busto de Domingos de Almeida Ribeiro, pelos quais lhe foi atribuída uma menção honrosa.


S. Lázaro

S. Lázaro (1861-1867)

A primeira fase da formação de Soares dos Reis foi feita na Academia Portuense de Belas Artes, também conhecida por Academia de S. Lázaro. Nessa altura, como actividade extra-curricular, teve a oportunidade de fazer alguns ensaios em escultura, sob a direcção de António Luís da Silva Cruz, recebendo assim uma vertente prática que não encontrava na Academia.

A Academia tinha parcos recursos, quer financeiros quer humanos. Oferecia aulas de pintura, escultura e arquitectura, e ainda um curso preparatório de Desenho mas os professores estavam muito longe da excelência e o que tinham para ensinar a Soares dos Reis pouco faria pelo seu desenvolvimento artístico. Foram seus professores T. M. de Almeida Furtado em Desenho de estampa e de gesso; Manuel José Carneiro, Joaquim da Costa Lima e M. de Almeida Ribeiro em Arquitectura e Perspectiva; Manuel da Fonseca Pinto em Escultura e João António Correia nas disciplinas de Pintura e Anatomia.

Mas se o ensino era mau, os alunos não contrariavam essa tendência, o seu número era muito reduzido e, na sua maioria, não possuíam grandes capacidades, limitando-se, regra geral, a fazer apenas o necessário para a obtenção do diploma que lhes permitisse conseguirem do professorado, oficial ou particular, a necessária sobrevivência material.

A somar aos problemas relacionados com o ensino havia também o problema de o ambiente artístico do Porto ser quase inexistente. Mesmo a nível nacional o panorama artístico era antiquado e sem qualquer vigor.

 O grande impulso na sua formação como escultor viria a ser, efectivamente, a sua ida como pensionista, primeiro para Paris e depois para Roma.

Foi neste contexto que, a 1 de Outubro de 1861, António Soares dos Reis se matriculou na Academia Portuense de Belas Artes nas aulas do 1º ano de Escultura, Desenho e Arquitectura.

Como a Academia ficava em S. Lázaro, no Porto, e como Soares dos Reis residia em Gaia, tinha que fazer, a pé, um trajecto extenso para assistir às aulasm, o que não o impediu de, em Agosto de 1867,com apenas 20 anos, ter terminado o curso com louvor.

Em todos os cursos que frequentou, incluindo o de Pintura, obteve as melhores classificações e os 1os prémios.


 

 

O Caniço foi para S. Lázaro

Oriundo de uma família humilde, António Soares dos Reis, filho de Manuel Soares  e Rita do Nascimento, nasceu a 14 de Outubro de 1847, na freguesia de S. Cristóvão de Mafamude, em Vila Nova de Gaia .

O  pai, conhecido pela alcunha de Manuel Caniço, possuía uma pequena mercearia, onde António ajudava nos tempos livres e depois das aulas. A alcunha do pai passou para o filho e naquele tempo Soares dos Reis era conhecido como Caniço .

Já em criança, aproveitava todo o tempo que podia para rabiscar bonecos em qualquer papel que lhe aparecesse à frente, ou a esculpir, com o seu canivete, figuras de madeira, quando não bonecos de barro, cujo material ia buscar à Fábrica de Louça da Torrinha, na rua de General Torres.

Um dia, o seu vizinho, Diogo de Macedo, ou porque viu desenhos ou pequenas esculturas de António, ou ainda porque este desenhara nas paredes caiadas do muro de sua casa, achou-o com jeito para as Belas Artes, e questionou-o: Tu não gostavas de ir para as Belas Artes?

António ter-lhe-á respondido afirmativamente e isso foi  suficiente para que Diogo de Macedo, juntamente com o pintor Francisco Resende, tenha tomado a decisão de falar com Manuel sobre a possibilidade de matricular o filho na Escola de Belas Artes. Antoninho devia estudar, porque demonstrava muita habilidade de mãos, e era uma pena que estivesse para ali, perdido, numa mercearia, argumentou Diogo de Macedo que, para evitar qualquer hipótese de recusa, se ofereceu logo para custear metade das despesas.

Manuel aceitou, sem no entanto deixar impor uma contrapartida: enquanto estudasse, o filho teria de ajudar ao balcão durante os tempos livres, uma vez que as aulas eram nocturnas.

(Retratos dos pais do artista, desenhados pelo próprio)