Pensionato: de Paris a Roma

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Paris:

1868

Academia Sentada Foi a primeira prova que enviou enquanto pensionista em Paris. Cópia do modelo vivo, em gesso, executada sob a direcção de Jouffroy e assinada por este.

Academia, 1868

1869

NegroFoi obra que lhe permitiu a admissão na École Imperiale et Speciale dês Beaux Arts de Paris. Modelo nu sobre uma placa, executada sobre a direcção de Jouffroy (fiel ao neo-classicismo).

Aquiles entregando Briséis Baixo-relevo executado sobre a direcção de Jouffroy.

Aquiles entregando Briseis, 1869

Le tireur d’épines Cópia, executada sobre a direcção de Jouffroy.

Le Tireur d’épines, 1869

1870

Pescador  – Prova escolar, enviada para a Academia, rubricada por Jouffroy.

Pescador, 1970

Obra de Soares dos Reis durante os meses que mediaram entre o regresso de Paris e a partida para Roma:

 1870

Carro de Apolo – Baixo-relevo circular no centro do tecto, em estuque, representando Apolo num carro tirado por quatro cavalos. Este trabalho foi realizado para a casa do Sr.
Joaquim Teixeira de Campo, em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. Sabe-se que ainda em 1887 este baixo-relevo já tinha sido bastante alterado, possivelmente pela acção de obras de restauro realizadas “pelas ferramentas dos estucadores, que ainda não abandonaram o bárbaro costume de rapar toda a superfície de uma escultura até a deixar cheia de vincos e arestas”[6]. Actualmente faz parte da colecção do MNSR.

Carro de Apolo, 1970

Coração de Maria – Imagem em madeira policromada destinada a um Templo de Guimarães. Quando esta imagem foi levada para o seu destino, os crentes que frequentavam a Igreja começaram a implicar com ela dizendo que não se parecia em nada com as outras Santas e por isso pediram a Soares dos Reis que a retocasse e lhe desse um ar mais divino. O escultor fez-lhes a vontade mas não foi o suficiente para agradar os paroquianos que continuavam a achar que a imagem não parecia suficientemente divina. Essa falta de divindade fazia com que os paroquianos fossem perdendo fé nela e na sua capacidade de realizar milagres, o que os levou a desfazerem-se dela. A Imagem andou em leilão pelas sacristias, acabando por ir parar a lugar desconhecido.

Tempo– Trabalho para canteiro, foi modelado em gesso e representa uma alegoria do Tempo.

General João José de Lima Costa –Busto em barro cozido.

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Roma:

1871

Domingos Sequeira – Trata-se de um retrato em medalhão, feito em mármore, durante o pensionato em Roma. Para este retrato serviu-se de uma reprodução, em ponto pequeno, do busto do artista, feito pelo seu amigo Tenerani.

1871/72

O Desterrado Em Roma começou a sua estátua O Desterrado que, depois de modelada, deixou em Roma, partindo para visitar outras terras italianas. Segundo o escultor Diogo de Macedo (1889-1959), esta sua saída de Roma deveu-se ao facto de que com a modelação do Desterrado Soares dos Reis “Tinha desabafado uma grande mágoa e precisou de ir respirar novos ares”.  Estátua de grandeza natural, em mármore de Carrara de 1ª qualidade – foi a sua prova de aproveitamento do pensionato nesse país. É a sua obra mais conhecida mas também uma das que mais dissabores lhe trouxe.

Nos últimos meses de 1871 foi informado da suspensão das verbas que eram dadas aos pensionistas no estrangeiro  e que estes deveriam regressar a Portugal até ao fim do mês de Outubro desse ano. Para tal era concedido, a cada um deles, a soma de sessenta mil reis para que pudessem fazer a viagem de regresso. Isto foi um grande problema para Soares dos Reis, que já tinha gasto tudo o que recebera na aquisição do mármore para a realização desta estátua e das obrigações que contraíra com a mesma. Além disso, também já tinha dado início ao desbaste da peça e não a conseguiria terminar em tempo útil para cumprir as novas directrizes. Perante isto escreveu à Academia de Belas Artes solicitando que o seu caso fosse apresentado ao Corpo Académico e ao Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), na esperança que estes pudessem interferir na decisão tomada pela Comissão Financial do Governo Português em Londres.

Entretanto foi vivendo conforme podia, com o pouco que lhe restava, até  lhe aprovarem o prolongamento da estadia em Roma, recebendo novos subsídios para a conclusão da obra final como pensionista.

Com o prazo alargado, mas ainda assim impossível de satisfazer, não conseguiu terminar a obra em Roma enviando-a, ainda inacabada, para a Academia Portuense de Belas Artes[1]. Como auxílio para a finalizar tirou moldes, ao natural, do modelo vivo, deixando os gessos em Santo António dos Portugueses. Esta é a versão mais divulgada, aparecendo em quase todas as biografias do artista, no entanto, Mons. José de Castro, no artigo Soares dos Reis em Roma, com o qual participa na obra de homenagem Soares dos Reis: in Memoriam, conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos, dando a entender que o escultor teria conseguido terminar a obra ainda em Roma enviando-a, já concluída, para a A.P.B.A.

Em 1881 levou a obra à Exposição de Madrid onde ganhou a 1ª medalha e foi agraciado com o grau de cavaleiro da ordem de Carlos III. Foi nessa altura que, através de um jornal de Lisboa, foi lançada uma campanha, que negava a autoria d’ O Desterrado a Soares dos Reis. Provar que tudo de que o incriminavam não passavam de falsas acusações,  foi algo que rapidamente conseguiu fazer através de documentação que pediu que lhe enviassem de Roma, mas nunca conseguiu esquecer ou perdoar esta infâmia perpetrada contra si.

O Desterrado, 1872


 [1] Mas a estátua para cujo mármore havia concedido, segundo a praxe estabelecida, os invariáveis 360$000, não estava ainda concluida no princípio de Março de 18 de 1872. Precisava de mais tempo e o governo declarou que não dava mais um vintem, suspendendo-lhe em Março a pensão habitual de 50$000 e mandou-lhe 60$000 para o regresso a Portugal. Mesmo desamparado, continuou a trabalhar. A 1 de Junho de 1872 o Conde de Tomar vem em seu auxílio junto de António Rodrigues de Sampaio, que a 23 de Julho resolveu pagar-lhe as pensões atrasadas e as que fossem precisas. Mas Soares não quer mais de 20 dias para a conclusão da estátua desejando somente que o poupassem à despesa do transporte para a Academia Portuense das Belas-Artes. (…) A estátua conclui-se rápidamenete comassombro geral. A mesma veio para Portugal e o gesso deixou-o de presente e lembrança ao Instituto de Santo António. in Mons. José de Castro (s.d.);Soares dos Reis em Roma,  Soares dos Reis: in Memoriam.

A Casa – após a morte do Mestre

A casa serviu a inúmeros propósitos e não foi por ser pequena ou modesta que os não cumpriu na perfeição. Foi lar, pois nela Soares dos Reis viveu com a sua esposa e os dois filhos; foi local de trabalho, já que na zona correspondente à oficina nasceram inúmeras das valiosas obras que o artista nos legou; local de lazer, quer pela possibilidade que o jardim dava a Soares dos Reis para se dedicar à jardinagem, uma das suas actividades favoritas, mas também porque era onde recebia os amigos com quem partilhava animados serões onde não faltavam entusiastas conversas sobre o mundo das artes.

Conversava-se sobre todos os ramos das Belas Artes, discutiam-se as obras dos grandes artistas, antigos e modernos, fazendo-se a apologia dos grandes mestres escultores. No dia de Santo António, padrinho do escultor, havia sempre festejos na casa-oficina com balões venezianos, bichinhas de rabiar, foguetes de dez reis e muitas, muitas flores.

A casa viu ser-lhe atribuída ainda uma outra função, talvez a mais importante para o artista, a de se tornar quase uma extensão do que se fazia na Academia de Belas Artes, quando nela estabeleceu um curso de arqueologia, em que se estudava pelo manequim, panejamentos representando os antigos trajes gregos e romanos.

Com a morte do artista tudo isto desapareceu.

Depois do suicídio do marido, D. Amélia partiu para o Porto, para casa dos seus pais, levando consigo os filhos. Permaneceram lá cerca de 4 a 5 anos até regressarem à  casa na Rua Luiz de Camões. Mas em 1910 os pais de D. Amélia faleceram  deixando esta de ter qualquer apoio financeiro e assim ver-se obrigada a vender a casa-oficina. A venda foi concretizada nesse mesmo ano, por um conto de reis, a uma modista da rua de Santo António, no Porto.

Por volta de 1912/1913, chegou ao Porto um tio de D. Amélia, que vinha do Chile, e a notificou de que um dos seus irmãos, morto no terramoto do Chile de 1906, lhe tinha deixado todas as suas propriedade,o que fez renascer a esperança de readquirir o imóvel que tanto lhe havia custado abdicar.

Foi também em 1913 que se gerou um movimento para salvar o edifício, liderado pelo pintor Joaquim Lopes (1886-1956) que, juntamente com um grupo de jovem artistas e alguns alunos de Belas Artes, analisaram a situação da casa e após avaliação enviaram ofícios para alguns Ministérios, para a C.M.V.N.G. e para a Comissão Municipal Republicana de Gaia, aos quais pediram 600 mil reis para a reabilitação do espaço. Esta iniciativa de nada serviu já que nenhuma das entidades emitiu qualquer tipo de resposta.

A viúva de Soares dos Reis vendo como certa a possibilidade de receber uma simpática herança não perdeu mais tempo e, por três contos de reis, readquiriu a casa. Nesta altura era já seu propósito doá-la à Câmara de Gaia. Mas o que parecia um final feliz veio a revelar-se um pesadelo quando perceberam que os terrenos do Chile, que ficavam muito longe e não tinham administrador que os fizesse render, lhes deram uma ninharia. O problema financeiro não só regressara como ainda se agravara e a única esperança residia em que a Câmara lhes apresentasse uma proposta para a aquisição da casa, o que nunca veio a acontecer. A situação económica da família não melhorava e, aos poucos começaram a desfazer-se de peças de arte e mobiliário que ainda possuíam, na esperança de equilibrar as finanças e não ter que se desfazer novamente da casa. Mas o inevitável aconteceu e, entre 1917 e 1918, forçada pela necessidade, D. Amélia viu-se obrigada a vender a casa novamente, desta vez a um comerciante de Gaia, filho de uma moradora da Vila, de nome D. Maria da Assunção Taveira.

O novo proprietário fez dela moradia para a sua mãe e irmã. Durante o período em que habitaram a casa, mãe e filha subalugaram parte da casa a um armador. A casa onde em tempos se criou obras de arte era agora um local de fabrico e exposição de caixões.

Em 1922 o arquitecto Francisco Oliveira Ferreira (1884-1957) fez reunir várias entidades e criou uma comissão, da qual fizeram parte o próprio arquitecto (como organizador), Fernando Castro, Henrique Moreira, Augusto Ribeiro da Silva e Oliveira Guerra, com o intuito de promover um destino mais digno àquela que foi a última morada de um dos mais ilustres filhos de Gaia. Para tal tiveram a ideia de pedir a todos os Antónios de Portugal, por intermédio dos párocos da freguesia, que contribuíssem para a subscrição destinada a arrecadar o valor necessário para a compra do imóvel e para o restabelecimento da sua traça primitiva. Mais uma vez, nada de concreto saiu desta reunião o que não inibiu Oliveira Ferreira de, quatro anos mais tarde, fazer uma nova tentativa, desta vez visando a aquisição do imóvel. O resultado foi o mesmo que o da tentativa anterior: nenhum!

No dia 12 de Janeiro de 1938 o jornal O Primeiro de Janeiro publicou um aviso sobre arrematação de um prédio, no qual se podia ler o seguinte:

Arrematação

2ª Praça

No dia 14 do corrente mez, pelas 14 horas, á porta do Tribunal Judicial da 6ª Vara, instalado no Palácio da Bolsa, desta cidade, por virtude dos autos de execução para custas e selos que o Ministério Público move a José António Taveira Pereira e esposa Maria Madalena Lopes Teixeira, se há-de por em arrematação o seguinte:

Prédio

Um prédio composto por uma morada de casas térreas, com águas furtadas e mais pertenças sito na rua Luiz de Camões, nº 191 a 195, freguesia de Santa Marinha, de Vila Nova de Gaia; descrito na Conservatória no Livro-B-98 a fls. 142 sob o n.º 31.130, e que vai á praça por 16.250$00.

A cargo do arrematante são as despezas de praça e os encargos desconhecidos. Para deduzirem os seus direitos citam-se credores incertos.

Porto, 7 de Janeiro de 1938

O Juiz de Direito,

Bordalo e Sá

A Chefe da 2.ª Secção,

António Pinto Ferreira.

Tratava-se da casa-oficina. Ainda segundo o mesmo jornal, com data logo a seguir ao dia da arrematação, o prédio já havia ido à praça há cerca de 15 dias sem que tivesse havido licitantes. Na segunda ida à praça houve dois, o procurador José de Oliveira Freitas, que fez o lance de 30.000$00 e o jornal O Primeiro de Janeiro que ofereceu mais 100$ que o anterior.

Foi assim que a 14 de Janeiro de 1938 a casa foi adquirida, em hasta pública por 30.100$00, pela empresa O Primeiro de Janeiro, através do seu Director Manuel Pinto de Azevedo Júnior. O intuito desta aquisição passava pela sua cedência, ao preço do seu custo, a quem fizesse dela um Museu que recordasse o escultor e a sua grande obra.

Não foi pacífico o processo judicial que levou ao leilão da casa-oficina. Todas as questões que se moviam em torno da casa levaram a sua residente, D. Maria da Assunção Taveira, a escrever uma carta aberta que O Comércio do Porto publicou a 19 de Janeiro de 1938. Nesta, refere que ainda no tempo em que a casa pertencia a D. Amélia, a mesma fora arrendada primeiro a um taberneiro e depois a um armador, a quem o filho de D. Maria tivera que indemnizar, quando adquirira a casa, para que a mãe e a irmã lá pudessem habitar. Que ela e sua filha, efectivamente tinham subalugado parte da casa a um outro armador e que não via nenhuma vergonha nisso já que a anterior proprietária também o fizera.

Conhecidas as intenções da empresa O Primeiro de Janeiro relativamente ao futuro da casa-oficina, no dia 15 de Junho de 1938, professores da escola de Belas Artes, reunidos em Conselho Escolar, deliberaram fazer diligências junto da C.M.V.N.G., para que esta se decidisse a comprar o imóvel.

Em Março de 1939 os professores da escola de Belas Artes do Porto reuniram-se para avaliar a situação em que se encontravam os trabalhos, desde há muito encetados junto à Câmara de Gaia, para a aquisição da casa-oficina do Mestre Soares dos Reis. Dessa reunião saiu uma comissão composta pelos professores Marques da Silva, Joaquim Lopes e Acácio Lino, que levaram à Câmara o seu apoio de artistas e a promessa de colaborar no projecto de aquisição e reconstrução da casa-oficina em que a Câmara de Gaia se havia mostrado também empenhada. Associou-se também ao projecto a Comissão de Arte e Arqueologia para a habilitar a dar execução à aspiração da reconstrução da casa-oficina de Soares dos Reis. À Comissão de Arte e Arqueologia foram agregadas várias personalidades que, pelas suas qualidades, se acreditava poderem dar melhor orientação à resolução do assunto. E foi dessa forma que expuseram ao presidente da Câmara de Gaia a sua opinião, quanto à criação da Casa-Oficina de Soares dos Reis, em Gaia, já que a Câmara tinha em seu poder elementos que a habilitavam a poder adquirir a casa onde viveu e trabalhou o escultor. E assim que resolvido pela Câmara o problema da aquisição da casa apresentaram um conjunto de soluções para a utilização da mesma conseguindo com as mesmas

um elemento de grande valor moral e educativo e, ao mesmo tempo, prestar uma nova homenagem ao seu Filho ilustre:

Resolvido pela Exma. Câmara o problema da aquisição da casa, a maneira de efectivar a ideia, que há tanto tempo é acarinhada por um grande número de amigos e admiradores de Soares dos Reis e de interessados por assuntos de Arte, deve ser, em nosso entender o seguinte:

a) Reintegrar, á face de fotografias e outros documentos existentes, e do testemunho pessoal de alguns amigos e da família do Artista, o seu aspecto tanto exterior como interior;

b) Reconstituir o mais rigorosamente possível, o arranjo da Oficina, no estado em que se encontrava á data da morte do Artista, e bem assim o jardim;

c) Aproveitar as restantes dependências da casa, para nelas ir guardando e arquivando todas as recordações do artista, tanto aquelas que a Ex.ma Câmara Municipal de Gaia pode desde já conseguir e fazer ali recolher, como as que venham a ser cedidas por particulares, amigos e admiradores de Soares dos Reis;

d) As reproduções das obras do Artista, a recolher ou a conseguir para este fim, devem ser limitadas apenas ás indispensáveis para a reconstituição do ambiente; esta reserva, quanto ás reproduções, visa a valorizar de preferência os originais que por ventura venham a dar entrada na Casa-Oficina de Soares dos Reis;

e) O espírito que deve sempre orientar a Organização desta Homenagem é enriquecer ao máximo a casa-ofícina com as recordações do Artista e não visa a criação de um Museu das suas obras, o que é impossível.

Desagradável seria, além de tudo, cair num Museu de reproduções, bem distante, sem dúvida, da delicadeza da ideia, que se pretende levar a efeito;

f) Algumas ofertas de desenhos e outras Recordações, já se anunciaram até por parte de alguns dos membros desta Comissão.

Orientada desta maneira a Organização da casa-ofícina de Soares dos Reis, a Exma. Câmara de Gaia pode estar certa de conseguir para o seu património de Arte, mais um elemento de grande valor moral e educativo e, ao memo tempo, prestar uma nova homenagem ao seu Filho ilustre.

Mas a resposta da Câmara não foi a que a Comissão esperava, rejeitando todas as propostas que lhes foram apresentadas e procurando encontrar uma justificação para a inviabilidade de cada uma delas:

Desde que é necessário reconstituir o Edifício onde viveu o grande artista Soares dos Reis, tanto interior como exteriormente, o ambiente da oficina em que foram executadas tantas obras de valor, não fica sendo verdade.

Nestas condições não pode de forma alguma emocionar os visitantes. Uma coisa é o autêntico meio onde viveu e trabalhou o Artista; outra, uma reconstituição.

Isto é acrescido do facto de terem que ser imitações os objectos a colocar na oficina, para a reintegrar no que era, visto que na sua maioria, estão todas recolhidas em Museus ou na posse de Particulares.

Deve ainda ponderar-se o facto, que seria estranho, que a Câmara de Gaia efectivando a iniciativa da casa-oficina de Soares dos Reis, nela não depositasse alguns valiosos trabalhos e recordações que possui a Municipal Casa Museu Teixeira Lopes.

A escritura de compra desta casa opõe-se, porém, à saída de qualquer objecto pertencente ás suas colecções. E isto basta para que tenhamos necessidade de analisar o lado moral do caso.

Acha ainda este Conselho Municipal, muito problemática a oferta de lembranças de Soares dos reis em número e qualidades suficiente que justificasse o interesse do público. Não deve esquecer-se que tudo o que é bom ou tem real interesse esta nos Museus ou nas mãos de particulares que não cedem essas preciosidades.

Não significa a resolução do Conselho Municipal, não concordando com a criação da casa-ofícina Soares dos Reis, menos interesse pelos assuntos de arte, nem também menos consideração pela memória do Ilustre artista Gaiense que foi Astro de primeira grandeza na escultura contemporânea nacional.

Exactamente porque assim pensa, é que receia arriscar o grandioso prestígio da personalidade do Artista, nesta iniciativa de resultado desde já duvidoso, por se apoiar num conjunto pobre a instalar num ambiente falso.

As grandes figuras, na homenagem que podem esperar dos homens que os admiram, têm seu decoro. Por essa razão não devemos sujeitar-nos ao desaire de ter de coleccionar miudezas ridículas e de somenos interesse.

Ao apresentar estas considerações, não deve esquecer-se que o Concelho de Gaia, tem seu homenageado, tanto quanto possível, a memória de tão grande Artista. É bom insistir neste ponto porque na Imprensa chegaram a correr amargos comentários sobre um pretenso desprendimento do Concelho por tão ilustre Filho. Comentários injustos, porquanto já 30 anos passaram sobre a inauguração do seu monumento, executado por outro artista ilustre na Arte, igualmente gaiense – Teixeira Lopes, ao Jardim onde se levantou a sua estátua, antigo jardim D. Pedro V e á Rua que vai desde a Capela de Santo Ovídio foi dado o nome de Soares dos Reis; no Mosteiro da Serra do Pilar, foi realizada uma exposição parcelar da sua Obra; em álbum comemorativo foi publicado e a sua sepultura está decorada e florida no Cemitério de Mafamude.

Desde há muito, portanto, que o Concelho presta á memória de tão Ilustre Gaiense justa homenagem e carinhosa veneração.

Perante este acontecimento a Comissão de professores de Belas Artes ainda procurou o Presidente de Câmara, tentando demonstrar-lhe quão erradas eram as ideias apresentadas através daquele documento e como contrariavam o desejo de prestar a devida homenagem a Soares dos Reis, reedificando a casa-oficina onde ele concebera e realizara alguns dos seus trabalhos imortais. O presidente da Câmara ouviu-os e disse tomar nota dos elementos que pudessem levar à concretização do projecto em causa mas passaram anos até que alguma coisa fosse feita.

Só em 1946 é que, finalmente, o Presidente da Câmara se dirigiu a Manuel Pinto de Azevedo, representante d’O Primeiro de Janeiro, para que a empresa vendesse à autarquia o imóvel que desde há tanto dava que falar. Assim, a 15 de Março desse ano, durante uma Assembleia-geral da Empresa O Primeiro de Janeiro, Manuel Pinto de Azevedo expôs a proposta que o autarca da C.M.V.N.G. lhe havia feito, e logo foi aceite, por unanimidade, que se fizesse a venda do imóvel, pelo valor de 33.700$00, mas com a condição deste ser destinado a perpetuar a memória do seu primeiro proprietário e não para qualquer outro fim, tendo tudo isto ficado registado em acta.

A 31 de Dezembro de 1946, foi lavrada a Certidão de Venda da Casa Atelier de Soares dos Reis, pela empresa O Primeiro de Janeiro (representada por Manuel Pinto de Azevedo) à C.M.V.N.G., na qual vinham indicados os termos e condições que esta deveria cumprir para que a transição tivesse validade, que eram os seguintes:

Primeira: A venda é feita por trinta e três mil e setecentos escudos, quantia que a empresa vendedora já recebeu, e da qual, consequentemente dá, à Câmara compradora a competente quitação;

Segunda: A casa ora vendida destina-se apenas para o efeito de a Câmara compradora nela instalar (depois de reintegrada na sua traça primitiva, conforme alçado que a Câmara possui, apresentado por requerimento do referido Mestre Soares dos Reis) um atelier modelo, em que se guardem todas as recordações desse Mestre, que adquiridas pela Escola de Belas Artes do Porto, ficarão à guarda da Câmara Municipal de Gaia, mediante o compromisso, que por parte desta, de admitir, para trabalharem no citado atelier sob a orientação de um professor da referida Escola, dois ou três dos alunos mais distintos de escultura, tudo conforme se fixar em acordo a estabelecer entre aquela Câmara e a Escola de Belas Artes.

Terceira: a obra a fazer por satisfação dos fins indicados na cláusula anterior deverá estar concluída no prazo improrrogável de seis meses a contar desta escritura.

Quarta: esta venda será feita sobre a condição resolutiva de se dar por inteiro cumprimento às cláusulas segunda e terceira desta escritura, pois na hipótese de Câmara compradora não satisfazer o que aí ficou estipulado, dando ainda a casa objecto deste contrato, destino diferente daquele para que é cedida, deverá reverter ao domínio e posse da empresa vendedora, correndo, neste caso, o risco da coisa vendida por conta da compradora.

Logo em 1947, e como forma de assinalar as comemorações do primeiro centenário do nascimento de António Soares dos Reis, começaram os preparativos para que a casa-oficina fosse convertida em Museu mas nessa altura ainda havia inquilinos a habitá-la que se recusaram abandoná-la, apesar das soluções conciliatórias que lhes foram apresentadas. Sem os conseguir despejar e vendo-se assim na impossibilidade de cumprir as cláusulas da escritura de aquisição, pediu a Câmara auxílio ao Estado na resolução do problema com que se debatia. Como solução a Direcção Geral da Fazenda Pública propôs que  imóvel fosse doado ao Estado, o qual teria os meios adequados para fazer cumprir o que tinha sido deliberado em contrato. Percebendo que o Estado disporia dos meios que na altura escasseavam à Câmara e que, como esta própria afirmou, “Considerando, além de tudo, que a casa-oficina Soares dos Reis, pelo génio universalista do Mestre, é mais património nacional do que municipal” logo a 5 de Julho de 1947, em reunião ordinária, a Câmara decidiu fazer a doação da casa-oficina de Soares dos Reis ao Estado Português, na qual transmitia as obrigações que contraíra por escritura com a empresa O Primeiro de Janeiro. Por despacho do Ministro das Finanças, 11 de Junho de 1947, foi autorizado pelo Estado a aceitação de doação da casa  e a certidão mandada obter a 7 de Julho de 1947. O estado da casa obrigava à necessidade de dar início às obras restauro e recuperação com toda a urgência mas para isso deveria despejar-se os inquilinos o mais rapidamente possível e, entretanto, dar-se início ao estudo das obras a executar.

Em Agosto desse ano, o edifício ficou livre de moradores e à disposição para que se desse início às obras  e a 15 de Setembro a chave da casa já se encontrava na Direcção dos Edifícios Nacionais do Norte para que se pudesse dar inicio às obras . Uma vez que estavam a pouco mais de um mês do aniversário do nascimento do escultor, para o qual se preparavam vários tipos de comemorações, ter o imóvel pronto para essa altura seria o ponto alto das mesmas.

Mas o tempo que sobrava para a realização das obras até 14 de Outubro, data do nascimento do escultor, não era suficiente e as comemorações passaram-se sem que a casa tivesse sofrido qualquer intervenção. O estado em que a casa se encontrava era de grande degradação havendo inclusive um parecer que dizia que pouco mais se conseguiria aproveitar além das paredes exteriores e que as obras se tratavam mais de uma reconstrução do que de uma reintegração, o que as tornaria caras. Foi então feito um estudo para saber ao pormenor todos os arranjos que a casa necessitava do qual ainda existe a Memória Descritiva e uma detalhada listagem, descriminada por áreas, o tipo de intervenção a ser feito, respectivos materiais, quantidades e preços. Após a sua conclusão este estudo foi submetido a aprovação do Ministério das Obras Públicas. O orçamento total somava o valor de 122.100$00, incluindo 5% para imprevistos e 5% para fiscalização. O parecer sobre as obras descriminadas no referido estudo não foi inteiramente aprovado, referindo-se correcções que deveriam ser consideradas para o funcionamento adequado do espaço e só passado mais de um ano é que o Projecto de Reintegração e Restauro mereceu a aprovação do Sub-secretário de Estado das Obras Públicas por despacho de 7 de Julho de 1949. Porém, não foi consignada qualquer verba!

A casa no final do sec. XIX

A Casa em 2010

A Casa – porta para a oficina

A Casa – janela da oficina onde se consegue ver o tecto que desabou