2014 in review

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Imagens da casa-oficina em 2013

Estado da casa-oficina de António Soares dos Reis no Inverno de 2013

As imagens que se seguem são da autoria de Carlota Cunha e de José Eduardo Gama da Direcção Regional de Cultura do Norte – Direcção de Serviços de Bens Culturais,  no sentido de integrarem o pedido de classificação da casa- oficina do  escultor António Soares dos Reis a Monumento de Interesse Nacional. 
 
Diz a famosa citação de Antoine Lavoisier que “ Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Parece que com o nosso Património é sobretudo ” pouco se cria, quase tudo se perde, pouco ou nada se transforma”
 
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A Carlota Cunha e José Eduardo Gama os nossos agradecimentos.

Petição pela classificação da casa-oficina do grande escultor António Soares dos Reis a Monumento de Interesse Nacional

Para: Direcção Geral do Património Cultural e Direcção Regional de Cultura do Norte

António Soares dos Reis (1847-1889) foi um dos mais geniais escultores do seu tempo e dos mais grandiosos de Portugal. Já na época em que viveu recebeu mais elogios dos colegas e professores estrageiros do que dos seus conterrâneos. Mercier, escultor francês seu contemporâneo, o dissera em Paris: “Il est le plus grand de nous”. Por ignorância ou por inveja nunca recebeu em vida o devido valor como artista.
Infelizmente esta foi uma situação que pouco ou nada mudou, o que se pode ver pela casa que lhe pertenceu e que continua ao abandono em cada vez maior estado de degradação. Esta casa, projectada por José Geraldo Sardinha a partir de um esboço desenhado por António Soares dos Reis foi o local onde o artista viveu, trabalhou, deu aulas e se suicidou.
Poucos livros, por mais completos que sejam podem contar tão bem os últimos anos da vida do artista como esta casa. Foram várias as propostas que ao longo dos anos foram sendo apresentadas para a recuperação e reabilitação deste espaço de forma a torna-lo um local de homenagem ao grande Mestre Soares dos Reis. Por alguma razão, que nos escapa, esses projectos nunca se concretizaram e a casa foi sendo esquecida até chegar ao estado de degradação em que hoje se encontra.
Agora que a proposta de Classificação do imóvel que foi casa oficina de António Soares dos Reis, sita na Rua Luís de Camões nº 207, Vila Nova de Gaia, foi apresentada à Direcção Regional de Cultura do Norte, dirigimo-nos à Direcção Geral do Património Cultural solicitando que esta seja classificada como Monumento de Interesse Nacional para que a partir deste estatuto lhe seja reconhecido o inestimável valor histórico e memorativo que detém e desta forma tornar possível a sua futura recuperação enquanto imóvel e reabilitação enquanto marco da nossa história.

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT72662

16 de Fevereiro de 1889 – Faleceu António Soares dos Reis

O Caminho da tragédia  

Máscara fúnebre de António Soares dos Reis, modelada em gesso, do natural, por Teixeira Lopes (pai).

Máscara fúnebre de António Soares dos Reis, modelada em gesso, do natural, por Teixeira Lopes (pai).

 

No dia 17 de Fevereiro de 1889 lia-se no Diário de Notícias:

Porto, 16 – Suicidou-se hoje às 08h00 da manhã, na sua casa da Rua de Luís de Camões, em Vila Nova de Gaia, disparando dois tiros de revólver na cabeça, o eminente estatuário Soares dos Reis, lente de escultura na Academia de Belas Artes e autor de verdadeiras obras-primas. (…) São desconhecidas as causas que determinaram o suicídio.

   Colocou termo à vida a 16 de Fevereiro de 1889 mas o caminho que levou à tragédia começou anos antes.

   Em 1887, quando terminou a Estátua de Afonso Henriques, para Guimarães, a sua saúde voltou a piorar e em carta à Academia Portuense de Belas Artes, informa que esteve recentemente instalado numa casa de saúde, tendo depois seguido para Lisboa com o intuito de mudar de ares. É nessa altura que conhece Elisa Leech, a qual pede ao artista para que a retratasse. Desse trabalho resultou o famoso Busto da Inglesa, que ficaria inacabado por esta deixar de aparecer a servir de modelo. Para o artista esta rejeição foi mais um duro golpe.

    Em 1888 abandona Lisboa para regressar a Vila Nova de Gaia e dirige uma carta à Academia Portuense de Belas Artes onde demonstra a sua intenção de abandonar a regência da cadeira de escultura.

    Em 1889 a sua depressão agrava-se sob a forma de grandes perturbações mentais e irritabilidade, procurando constantemente o isolamento. A 15 de Fevereiro no que parecia ser uma aparente melhora, a reúne-se com os amigos e, com grande entusiasmo, apresenta o seu projecto para o Monumento ao Infante D. Henrique.

   D. Amélia, sua esposa, desconfiando que algo de errado se passava , na véspera da tragédia,  escondeu-lhe a pistola. Na manhã de dia 16, Soares dos Reis levantou-se e foi dar alguns retoques na obra em que trabalhava na altura, o Busto de Fontes Pereira de Melo. Pouco depois ouviu-se um estrondo na sala do rés-do-chão, semelhante a uma detonação fazendo D. Amélia acorrer ao local, para ver o que se passava, onde encontrou o marido, em pé, limpando a pistola e desculpando-se que se havia descuidado e ela disparara acidentalmente. Mas, pouco depois, Soares dos Reis dirigiu-se para o seu escritório e de lá soou o mesmo estrondo que se ouvira anteriormente, só que desta vez quando a esposa chegou já o encontrou sem vida.

   Antes de premir o gatilho deixou gravado na parede do quarto:

Sou cristão, porém nestas condições a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo, a quem me fez mal.

   Foi sepultado no cemitério de Mafamude, em Vila Nova de Gaia, onde, contra o que é natural num suicida, teve um enterro cristão. O Busto sobre a sua campa é da sua autoria.

 

Campa de António Soares dos Reis, Cemitério de Mafamude

Campa de António Soares dos Reis, Cemitério de Mafamude

Dificuldades, derrotas e vitórias

Em 1882, Soares dos Reis, apresentou ao Conselho Escolar da Escola de Belas Artes do Porto uma proposta de reforma (ver “Reforma do Ensino: Propostas”). Esta veio a ser rejeitada uma vez que muitas das suas disposições contrariavam a lei orgânica que não se quis ver alterada em 1881.

Mas esta proposta viria a ser publicada na revista A Arte Portuguesa, como assunto de interesse, em Setembro de 1882,  artigo esse assinado por Manoel M. Rodrigues (1847-1899).

Assunto de Interesse (1ª parte)Assunto de Interesse (2ª parte)

Para Soares dos Reis este era mais um golpe que a vida lhe pregava. Exaltou-se, adoeceu e quis abandonar a Academia. Nesse ano esteve em repouso. Pintava, jardinava, lia obras sobre botânica, tocava violão, cantarolava. Por fim, acompanhado do pintor J. Vitorino Ribeiro (1849-1923), faz uma viagem pela Espanha e, novamente, por França.

Em Outubro de 1885, agora enquanto delegado da EBAP, apresentou perante o Conselho Superior de Instrução Pública várias propostas que, finalmente, viu serem admitidas e aprovadas por unanimidade.Todavia, foi logo avisado de que perderia o seu tempo e palavras, porque o Governo não estava disposto a desenvolver aquele ensino de belas-artes, nem a autorizar «despesas avultadas» como as requeridas.

Apesar das muitas desilusões não desistia da sua intenção de reformar o ensino e, como uma das medidas, para melhorar a sua Escola fez obras nas salas de aulas para os seus alunos e algumas melhorias conseguiu tiradas a ferro de um erário famélico.

Em 1886 apresentou ao corpo docente da EPBA o Programa e Regulamento do Curso de Escultura (ver “Reforma do Ensino:Propostas”), que então dirigia. Este foi recusado, e ele impedido de sequer apresentar as suas teses. Face à atitude dos seus colegas decidiu publicar um opúsculo, editado pelo Comércio do Porto, com o Projecto de Reforma e Regulamento do Curso de Escultura, que dedicou aos seus amigos José Simões de Almeida  (1844-1926) e José António Gaspar, também professores da Escola de Belas Artes de Lisboa

Entre o professorado, 1882, e o fim, 1889:

1882

Comércio e Indústria – Medalhões, executados em estuque, para a cúpula da escada nobre do edifício da Bolsa do Porto.

O AbandonadoModelou esta figura propositadamente para o Bazar promovido pelo Centro Artístico Portuense, em favor da viúva e filhos do arquitecto Soller.

O Abandonado

O Abandonado

1883

Francisco de Almada e Mendonça – Busto colossal do monumento erguido, por subscrição particular, no cemitério do Repouso, ao célebre corregedor.

Viscondessa de Moser  –  Segundo Manuel M. Rodrigues, na obra do Dr. Alves Mendes, este era considerado como um dos bustos mais notáveis de Soares dos Reis devido à grande semelhança com a retratada mas também pela sua qualidade de execução.

Busto da Viscondessa de Moser

Busto da Viscondessa de Moser

1884

Hintze Ribeiro – O busto que existia em mármore de Carrara pertencia à associação Comercial do Porto.

 Busto de Hintze Ribeiro (gesso)

Busto de Hintze Ribeiro (gesso)

José Correia de Barros – Busto do então presidente da Câmara do Porto.

 

1885

Diogo José de Macedo – Medalhão em gesso retratando o avô de sua esposa.

Amélia de Macedo – Medalhão em gesso retratando a avó de sua esposa.

Joaquim de Pinho– Retrato em medalhão. 

Dr. Fernandes Dourado – Grato ao médico seu amigo Dr. Francisco Fernandes Dourado pelos serviços clínicos que este lhe prestou, modelou-lhe o retrato em medalhão. Este trabalho foi também reproduzido em mármore de Carrara

Busto do Dr. Francisco Dourado

Busto do Dr. Francisco Dourado

Emília das Neves Trata-se do busto da actriz Emília das Neves que Soares dos Reis conhecera no palco do Teatro Basquet e a quem muito admirava. Apesar de iniciado em 1885, o escultor só o concluiu em 1888 e foi a última obra que apresentou em público, a qual foi inaugurada no átrio do Teatro D. Maria, em Lisboa. Modelado a partir de várias fotografias, todas diferentes umas das outras, o que dificultou o trabalho ao escultor, não terá deixado o seu autor totalmente satisfeito com o resultado final, como indica na sua carta à revista Occidente, datada de 25 de Dezembro de 1888.

Busto da actriz Emília das Neves

Busto da actriz Emília das Neves

1886

Félix Avelar Brotero  – Esta estátua, em mármore, destinada ao Jardim Botânico de Coimbra, representa o botânico sentado, cabeça levemente inclinada e vestes catedráticas, de borla na mão esquerda. Desse trabalho existia uma maquette, em terracota, que o escultor gentilmente ofereceu a Diogo José de Macedo Júnior, que o acompanhou a Coimbra, em 1887, por ocasião da inauguração do monumento no jardim botânico.

Estátua de Brotero (gesso patinado)

Estátua de Brotero (gesso patinado)

Augusto Cândido RamosRetrato em Medalhão.  

Medalhão de Augusto Cândido Ramos (bronze)

Medalhão de Augusto Cândido Ramos (bronze)

1887

D. Afonso Henriques Esta estátua colossal, representando o primeiro monarca português, destinada ao monumento que se ergueu em Guimarães viu ser escolhido para seu autor António Soares dos Reis. Actualmente é uma das mais representativas imagens identitárias dessa cidade.

A 2 de Setembro de 1885 foi lavrado o contrato segundo o qual o monumento a Afonso Henriques deveria ficar concluído no prazo de 2 anos. Nele colaboraram, sob a vigilância do Mestre, dois dos seus discípulos, Marques Guimarães e Serafim Neves, embora tenham realizado apenas algum do trabalho material. A criação do pedestal entregou-a Soares dos Reis ao hábil arquitecto, e seu amigo, José António Gaspar. O escultor queria um pedestal que não fosse demasiado elevado para que a figura do rei e os seus acessórios cheios de pormenores pudessem ser vistos e apreciados de perto, em todas as suas minudências.

As primeiras reacções a esta estátua de Afonso Henriques foram para apontar o defeito que viam ser o braço nu que, pelos modos, o rei não deveria ter usado! Na verdade, a primeira ideia de Soares dos Reis, ao modelar a estátua de Afonso Henriques, era apresenta-lo já numa idade avançada, gozando o merecido repouso que quer a longa idade quer o seu historial de vida lhe tinham legitimamente concedido. Mas entretanto acabou por substituir essa ideia inicial pela imagem do rei vencedor de Ourique,”robusto e esperançoso, pronto para a luta”. Para uma materialização exemplar desta nova ideia procurou soluções na obra La Chevalerie de Léon Gautier, livro profusamente ilustrado e documentado, que o seu amigo Diogo J. de Macedo Júnior encontrou numa antiga livraria, a Magalhães & Moniz, e cuja leitura lhe sugeriu. E foi após a análise a esta obra que o artista resolveu alterar a armadura que tinha começado a fazer, substituindo a cota de armas curta pelo lorigão de placas redondas até ao artelho. Mas a questão do braço também o preocupava já que com ele pretendia encarnar a força hercúlea e a virilidade máscula do famoso vencedor de Ourique, que com a sua gloriosa espada abriu fundo o cabouco em que seguramente firmou e cimentou os alicerces da nação portuguesa o que seria mais difícil de conseguir sem ser através de um braço nu. A solução a esse dilema encontrou-a na já referida obra de Léon Gautier, numa vinheta impressa com o elemento gráfico d’après la tapisserie de Bayeux (fin du XV.e siècle)! Era a resposta às suas necessidades, estava ali bem interpretado, em todos os seus detalhes, o rei invencível e grande conquistador.

O modelo em gesso ficou concluído em 1887, seguindo-se à sua fundição em bronze, a qual foi feita na fábrica “Aliança”, de Massarelos.

Actualmente a estátua já não se encontra na praça para a qual foi encomendada, tendo sido transferida para a entrada do recinto que dá acesso à Casa dos Duques e ao Castelo. Já não se encontra no pedestal original de autoria de Serafim Neves.

D. Afonso Henriques (bronze)

D. Afonso Henriques (bronze)

Dr. Artur Ferreira Macedo – Retrato em medalhão executado quando o escultor se hospedou na casa deste, em Lisboa.

 

1888

Mrs. Elisa Leech – Este busto em mármore, também conhecido como O Busto da Inglesa, é uma das obras mais emblemáticas do escultor quer pela história que o envolve quer por ter sido uma das últimas obras do Mestre, mas também pela sua elevada qualidade. A retratada, Mrs. Elisa Leech era mãe do ministro Inglês na corte de Berlim, foi ao Porto, em 1888, visitar uma amiga que era preceptora dos filhos de António Nicolau de Almeida, um negociante de vinhos muito bem cotado no meio comercial e cultural da época. Por se sentir desconfortável em hotéis, Mrs. Leech acabou por ficar hospedada em casa do Sr. Nicolau de Almeida, onde durante um jantar travou conhecimento com António Soares dos Reis que, como amigo que era do proprietário, amiúde frequentava a casa. Foi então proposto a Soares dos Reis que retratasse Mrs. Leech.

O escultor aceitou a proposta e rapidamente deu andamento à modelação que teve o seu início em Lisboa. Mas o busto não agradou a retratada que não se viu representada nele, não por diferença fisionómica mas por diferença de postura. Soares dos Reis não se limitou a retratar aquela inglesa em particular mas tentou, através dela, retratar o que deveria acreditar ser o carácter e postura ingleses. A retratada, foi aparecendo com cada vez menos frequência até deixar completamente de aparecer, sem nunca reclamar o trabalho que já tinha inclusivamente pago. Ao ver a perda de interesse por parte da retratada sentiu o escultor tal desânimo que acabou por nunca concluir a obra que retocou, pela última vez em 1889.

Busto de Elisa Leech  ou Busto da Inglesa (mármore)

Busto de Elisa Leech ou Busto da Inglesa (mármore)

Leandro Braga – Modelou o retrato em medalhão.          

Simões de Almeida – Modelou o retrato em medalhão.    

 

1889

Fontes Pereira de Melo – Este busto foi modelado em barro, e executou em mármore, por fotografias e era destinado à Associação Comercial do Porto. Foi a última encomenda de Soares dos Reis e não ficou inteiramente acabada.

Numa das ocasiões em que o jovem Ricardo de Macedo foi visitar o mestre à sua oficina na Rua Luís de Camões assistiu a um episódio muito sui generis que envolveu este busto: 

Sobre um madeiro tinha secado a lama em que delineara o busto de um qualquer magnate político. Talvez o Senhor Fontes… Mirou-o por todos os lados, ora afastando-se ou aproximando-se. Eis, senão quando, ouvi-o dizer: «Espera que já te ensino…» E com um dos maços de madeira de que se servia nalguns dos seus trabalhos, vai ao busto e… zás, trás, fê-lo, num momento em fanicos. «Porque matou o homem?» inquiri, atemorizado. «Não o matei, não senhor. Cumpri, somente, os preceitos do evangelho: Homem, és pó e ao pó hás-de tornar.

Busto de Fontes Pereira de Melo (gesso)

Busto de Fontes Pereira de Melo (gesso)


Do Corpo

Ao longo da sua vida Soares dos Reis foi frequentemente acometido por uma maleita desconhecida que o atirava para a cama por longos períodos de tempo, impedindo-o de trabalhar e obrigando-o a ficar dependente de cuidados de terceiros, normalmente da sua mãe. Numa carta, de 10 de Dezembro de 1884, que envia a José António Gaspar em que se pode ler-se o seguinte:

Am.o Gaspar/ Hum incidente bem desagradavel vem interromper (e quem sabe se para sempre) as nossas combinações com relação ao monumento de D. Affonso Henriques para Guimarães. Diz-me o doutor que devo responder laconicamente: pois é o que faço participando-lhe que o incidente de que acima falo é nada menos do que uma doença grave, aquella para que sempre tive predisposições, que agora me atacou deveras. Lembranças a todos e até outra vez se esta não for a ultima.

Sobre este mal nada se sabe, já que o próprio escultor é também desconhecedor da sua origem. É um assunto que pouco se vê referido mas que poderá ter igualmente contribuído para a depressão em que o escultor mergulhou nos últimos anos da sua vida. O próprio, numa outra carta a José António Gaspar informa-o que:

A este respeito que é hoje o que mais me interessa nada posso dizer-lhe porque me parece que estou sempre na mesma. Todos me aporrinham com conselhos, não ouso (sic) senão: tenha cuidado, tenha cautela, de forma que já não sei o que devo fazer nem o que devo pensar de mim mesmo. O que é mais curioso é que a final ainda não sei qual é a molestia ou se são mais do que uma ou até se não é nenhuma. Isto chama-se vegetar e não viver, e posso assegurar-lhe que n’estas condições a vida é pouco interessante: no entanto não vá julgar que tenho alguma idea de dar cabo d’ella, isso não.

Numa carta que Torcato Pinheiro dirige José António Gaspar ficamos a saber que a doença a que Soares dos Reis se refere na carta anterior o atirou para a cama por um período aproximado de um mês,

Tenho a dar-lhe boas novas. O nosso Soares levantou-se pela primeira vez neste momento, 10 de Janeiro de 85, às 2 horas da tarde.

Quando, em 1887, terminou finalmente a Estátua de Afonso Henriques, para Guimarães, a sua saúde voltou a piorar e em carta dirigida à Academia Portuense de Belas Artes, com data de 1 de Agosto, informa que esteve recentemente instalado numa casa de saúde.

Ex.mo Sr.

Tendo sido obrigado repentinamente a procurar uma casa de saude para tratar da minha saude sériamente comprometida, como sabe, e estando à minha disposição uma licença de que posso gozar quando precisar, participo a V. Ex.ª que desde ontem me acho em casa do Dr. Ferreira, Rua Duqueza de Bragança e se assim me for preciso gozarei todo o mês de Agosto da supradita licença.

                                                      Porto, 1 de Agosto de 1887

                                                                                                                                                                                                                                                 De V. Ex.ª

                                                                                                                                                                                                                                                Am.º e Ob.do

                                                                                                                                                                                                                                          A. Soares dos Reis.

Para mudar de ares, partiu para Lisboa, onde ficou instalado na Rua Jardim do Regedor n.º 43, sobre o que dá notícia a seu amigo Serafim Neves, em carta datada de 15 de Abril de 1888.

Do regresso de Roma,1872, até ao professorado, 1882:

1872/1973

Cristo Morto – Esta foi a primeira obra que Soares dos Reis executou em Portugal logo após ter regressado de Roma. A imagem, um Cristo Morto, feito em gesso e madeira, teve origem no pedido do Abade Santana e como destino o altar de S. Vicente, na Igreja de S. Cristóvão de Mafamude, Vila Nova de Gaia. O jovem artista não só acedeu ao pedido do abade, e de alguns dos seus conterrâneos, como fez também o donativo da imagem. Acontece que Soares dos Reis deu à imagem todas as características humanas, inclusive as partes genitais, o que ao ser verificado pelas devotas criou um grande alvoroço. Estas, para corrigir este excesso de realismo do escultor, acabaram por envolver a figura numa numerosa quantidade de toalhas e rendas, deixando a descoberto apenas as extremidades das pernas e parte do busto.

1972 - Cristo Morto

Cristo Morto

Virgem das Dores – Trata-se de uma imagem de roca em madeira para a Igreja de S. Francisco, em Guimarães.

Neptuno, Júpiter, Juno e uma Dançarina – Criadas para a Fábrica de Louça do Sr. João do Rio Maior, as estatuetas Neptuno, Júpiter e Juno e uma Dançarina, são imitação das de Canova. Todas elas foram reproduzidas em barro cosido e vidrado e alguns exemplares figuraram em várias exposições. Depois de vidradas foram mandadas à exposição de Viena de Áustria.

 187*

Saudade, Indústria e Comércio – Produzidas para o canteiro portuense Laurentino da Silva. As três foram reproduzidas em ponto grande, em mármore de Carrara, para um mausoléu do cemitério de Agramonte, e a primeira frequentemente reproduzida com diferentes dimensões.

 1874/1975

Senhora da Vitória – Imagem em madeira, destinada à Igreja da Vitória no Porto. Esta, tal como a grande maioria das imagens religiosas de Soares dos Reis, não foi bem aceite pelo seu ar aparentemente pouco divino. Os seus encomendantes, apesar do descontentamento, nuca ousaram contrariar o mestre fazendo-lhe a devolução do trabalho e a imagem foi permanecendo no templo a que fora destinada. Quase meio século após a sua chegada, alguém que também lhe notava um lado mais humano do que divino, decidiu levá-la a um santeiro para que lhe trocasse a cabeça por uma outra “mais adequada”. Quando este acontecimento se tornou público não faltaram vozes dissonantes a elevar-se face ao acontecido.

Nossa Senhora da Vitória

Nossa Senhora da Vitória

Anjo decorativo – Imagem em madeira também destinada à Igreja da Vitória no Porto.

Visconde de Tamandarê e Marquês do Herval – Os bustos do Visconde de Tamandarê e do Marquês do Herval foram executados em mármore de Carrara, e ambos modelados a partir de fotografias. Tinham como destino o Rio de Janeiro mas antes de serem enviados estiveram em exposição em Lisboa, em 1875.

Artista na Infância – Escultura em mármore, era propriedade da Duquesa de Palmela. Foi a primeira obra a pôr em maior evidência a mestria do seu autor.

Cabeça de Negro – Busto, em mármore, é a cabeça de um rapaz preto, a quem serviu de modelo um jovem conhecido de Soares dos Reis, que era oriundo das Terras de Santa Cruz e se chamava Domingos. A peça, em mármore, foi realizada para o Sr. Francisco de Oliveira Chamiço, de Lisboa. A obra foi exibida em várias exposições portuguesas e o modelo pertencia à Academia de Belas Artes de Lisboa.

Cabeça de Negro (gesso)

Cabeça de Negro (gesso)

Carpideira e Anjo (com emblema da Paixão) – Ambos os modelos foram realizados para o canteiro portuense José Amatucci. Quando Soares dos Reis terminou Anjo, o canteiro José Amatucci levou ao atelier o encomendante da estatueta, a fim de ver se a obra o agradava. Ao vê-la, o encomendante olhou-a com horror e recusou-a dizendo que a figura não era decente por ter os braços e uma pequena parte do peito nus, preferindo um daqueles modelos vulgares que se podia encontrar em qualquer cemitério. Assim, a estatueta deixou de ser reproduzida mas acabou por vir a ser exibida na Exposição Trienal de 1874. Depois disso, o modelo do anjo passou a pertencer ao canteiro Laurentino José da Silva.

 1875

Saudade – Estatueta em mármore de Carrara, pertencia a Francisco de Oliveira Chamiço. O modelo estava na posse de um Sr. José Victorino Damazio.

1876

Domingos de Almeida Ribeiro  – Trata-se de um busto cujo retratado era amigo de Soares dos Reis e professor do Liceu do Porto. A sua execução, em mármore, é considerada por muitos primeiro ensaio de naturalismo por parte deste artista.

Conde Ferreira – A estátua do Conde Ferreira, cujo mármore seria destinado à campa do benemérito da Cidade, no cemitério de Agramonte é colossal, com 2.5m de altura é, sem dúvida, uma das obras mais notáveis do escultor.

Depois de retirado do cemitério de Agramonte, onde estava muito mal tratado pelas intempéries, a escultura foi levada para o Museu Soares dos Reis onde, actualmente, pode ser vista, com o seu ar sereno e sorriso bondoso. Sobre a expressão que Soares dos Reis deu a esta obra alguém o advertiu de que não era igual à do Conde, ao que o escultor respondeu:

– Mas o Conde de Ferreira não era uma pessoa bondosa, amigo das crianças, trato fino, coração aberto à caridade?

– Isso era!

– Pois então este é o Conde de Ferreira.  

Ainda sobre a forma como o artista representou o Conde de Ferreira, Diogo de Macedo, em Soares dos Reis Estudo Documentado conta como o artista foi interpelado por alguém que estranhou ele ter dado tão bondoso aspecto, ao homem que acusavam de ter enriquecido como negreiro no Brasil ao que o artista respondeu que para a execução do corpo tinha seguido, quase fielmente, o modelo mais parecido com a imagem que o Conde tinha em vida mas que para a cabeça, tivera sempre presente, acima de tudo, o testamento admirável do benemérito, sem no entanto deixar de procurar a sua verdade fisionómica.

Conde de Ferreira

Conde de Ferreira

1877

Cristo Agonizante – Trabalho para uma Igreja em Vila Nova de Gaia.

Riqueza, Música, História e Trabalho – Quatro modelos de Estatuetas para o canteiro de Lisboa A. Moreira Ratto. Mais tarde foram as quatro reproduzidas em lioz e, essas reproduções, enviadas para o Brasil.

Riqueza, Música, História e Trabalho

Riqueza, Música, História e Trabalho

Emília Pinto Leite – Foi concluído o busto em gesso, mas o mármore ficou apenas esboçado.  

 1878

Francisco Pinto Bessa – Cconsiderado como um dos mais fortes retratos realizados por Soares dos Reis. Estava exposto na Sala de Sessões da Câmara Municipal do Porto.

Busto de Francisco Pinto Bessa

Busto de Francisco Pinto Bessa

Camões – Baixo-relevo feito por galvanoplastia.

Flor Agreste Em 1878 começou a modelar, em barro e em gesso, a “Flor Agreste” cujo mármore só concluiu em 1881. A modelo foi, segundo as fontes, uma vizinha de Soares dos Reis, em Vila Nova de Gaia.

Diogo José de Macedo Júnior fez a seguinte descrição sobre esta peça: O seu autor, que sabia escolher modelos, copiou efectivamente, sem preocupação de espécie alguma, a cabeça da linda e meiga carvoeira que se lhe deparou, juntando ao barro em que tão primorosamente a modelou, o cobre do real, no dizer de Alves Mendes, com o ouro do ideal .

Na Exposição Centro Artístico Portuensede 1881 foi adquirida pela quantia de 250$00 reis  O busto passou a pertencer a Rebello Valente e o modelo era propriedade de Diogo José de Macedo. Mais tarde o busto passou a ser propriedade do coleccionador de Arte, Tomás Archer de Carvalho, posteriormente formou-se uma comissão de admiradores do Escultor que angariou fundos para a sua aquisição, e o doaram ao Museu Municipal, hoje Museu Nacional Soares dos Reis.”

Flor Agreste

Flor Agreste

1879

Mercúrio e Comércio – Modelos para canteiros, destinados a uma fábrica de cerâmica.

A Saudade – Trata-se de um novo modelo, este para canteiro.

 1880

Camões – Este busto monumental de Camões foi criado para comemorações do centenário do poeta e foi esculpido em apenas 4 dias, com a colaboração de Marques de Guimarães, para o Ateneu Comercial do Porto.

Busto de Camões

Busto de Camões

S. José  e S. Joaquim  – Imagens em granito criadas para fachada da Capela do Palacete dos Pestanas, no Porto, que era propriedade do Sr. José Joaquim Guimarães Pestana da Silva. Os modelos em gesso pertenciam à A.P.B.A.. Soares dos Reis executou também para esta capela vários modelos de ornamentação.

 1881

Filha dos Condes de Almedina  – Estatueta em mármore de Carrara, concluída em 1882, representa a Filha dos Condes de Almedina, os quais eram os proprietários da obra. É a figura de uma criança com um rosto quase angelical, cuja delicada roupa está repleta dos mais requintados pormenores, com uma reprodução finamente trabalhada e minuciosa das rendas. O modelo da estatueta era propriedade do autor e estava exposto no C.A.P.. Esta peça, que também era conhecida por Primavera, é actualmente propriedade do MNSR, onde se encontra patente ao público.

Filha dos  Condes de Almedina

Filha dos Condes de Almedina

Joaquim Pinto Leite – Trata-se de um busto em gesso cuja obra foi recusada pelo retratado.

Narciso e a Morte de Adónis  – Foram as provas que o escultor teve que realizar no concurso para o preenchimento da vaga de Professor de Escultura da Academia Portuense de Belas Artes.           

Narciso (gesso)

Narciso (gesso)

Marques de Oliveira – Este busto, do seu amigo e professor da APBA, foi modelado para servir de recordação da vitória, acabada de obter, no concurso para professor da dita Academia.

 Marques de Oliveira  (gesso)

Marques de Oliveira (gesso)