Autobiografia

Autobiografia – Soares dos Reis

 Joaquim de Vasconcelos,  critico de arte e grande amigo de Soares dos Reis, enviou-lhe em 1879 um questionário ao  qual o Artista, não respondeu de imediato. A este respeito aponta Joaquim de Vasconcelos: «o questionário que apresentamos ao artista em meados de 1879 tinha um fim bem claro; mas Soares dos Reis, sempre um tanto desconfiado, deixou passar mezes, antes de responder. Venceu, afinal, o instincto do próprio interesse; e como ele não sabia mentir, e eu não soube nunca enganar ninguem com traiçoeiras lisonjas, redigiu e escreveu toda de seu próprio punho, com poucas ou nenhuma emendas, essa preciosa biographia, singela, sem atavios, sincera como o seu autor sempre foi.

Esta «Autobiografia» esteve inédita cerca 25 anos, tendo Joaquim de Vasconcelos referido a mesma num artigo publicado no Jornal «O Comércio do Porto», em 30 Outubro de 1904, aquando da inauguração do monumento erguido em Gaia. Mais tarde publicou-a em «A Revista», Fevereiro de 1905, com o título «Aos amigos de Soares dos Reis.

Retrato António Soares dos Reis

António Soares dos Reis – retrato

AUTOBIOGRAPHIA

Gaya,…de Novembro de 1879.

Ex.mo Am.o e Snr.

            Por intermedio de nosso amo …fez-me V. Exª um certo numero de perguntas ás quaes julgo ter respondido com os sarrabiscos que com esta lhe envio, pedindo-lhe encarecidamente desculpa de não o servir como desejava.

Fica ao seu dispor o

 

   De V. Ex.a

                                                                                           Am.o  M.to Obrg.do

 

Antonio Soares dos Reis.

 

Data de entrada para a Academia.

Tendo frequentado algum tempo antes a aula de desenho , matriculei-me no 1º anno de esculptura, desenho e architectura no 1º de Outubro de 1861.

Annos em que ahi cursou os estudos.

Frequentei a Academia até Agosto de 1867.

Quaes foram esses estudos?

Desenho de estampa, do gesso e pelo natural; esculptura do gesso e do natural; architectura e prespectiva; pintura e anatomia.

Quaes os mestres?

T. M. d’ Almeida Furtado, professor de desenho de estampa e de gesso; Manoel José Carneiro, Joaquim da Costa Lima e M. d’Almeida Ribeiro, professores de architectura e prespectiva; Manoel da Fonseca Pinto, professor de esculptura; J. Antonio Corrêa, professor de pintura e anatomia.

Data da sua sahida para fora do reino, a estudar.

Sahi de V. N. de Gaya para Paris no dia 27 de Outubro de 1867 chegando a esta cidade a 6 de Nov.bro do dito anno.

Fundamento da sua qualidade de pensionista do estado (isto é: quaes os premios que recebeu da Academia, e qual o resultado do concurso p.a  pensionista. Quaes os concorrentes n’esse concurso?

Alem de ter sido sempre approvado e elogiado (excepto no segundo anno de architectura) em todos exames, conferiram-me o 1º prémio no 5º anno de desenho (figura pelo nnatural); tendo concurrido com os trabalhos dos exames do 5º anno de architectura ao concurso de magno trienal, obtive, em cada uma d’estas duas especialidades o 1º premio. Quando foram abertos os concursos para pensionistas concurri, eu só, ao de esculptura sendo afinal approvado por unanimidade em 31 de Agosto de 1867.

Quaes foram os seus estudos no estrangeiro?

Em Paris estudei, na Escola imperial e especial, só escultura, e frequentei os diversos cursos que tinham relação com ella, isto é, anatomia, philosophia da arte e da esthetica, história e archeologia, desenho pelo natural e do antigo etc.

Quaes os mestres?  Quaes as distinções?

O meu mestre em esculptura foi, M. Jouffroy; em anatomia…[1]; em philosophia da arte, m. Taine; em historia e archeologia, M. Heuzei[2]; em desenho m. Ivon. Em Roma não frequentei nenhuma academia nem fiz mais nada alem da estatua o Desterrado e um medalhão em marmore do Sequeira. Conquanto me fosse indicado o distincto estatuário Jiulio Monteverde para meu professor, nunca trabalhei sob a direcção d’elle. As distincções que obtive em Paris foram: classificação em 1º lugar quando pela 3ª vez fiz o concurso de recepção em esculptura; duas 3as medalhas em concurso de esculptura do vivo e do antigo; 3ª e 2ª em concursos de desenho pelo vivo (unicos premios que se concedem n’estes concursos), e por ultimo um 1º premio pecuniario 300 fr.cos na exposição annual dos trabalhos dos alumnos da escola.

Duração d’esses estudos no estrageiro.

Em Paris estive desde 6 de Novem.bro de 1867 até Agosto de 1870 voltando a Portugal por causa da guerra. Depois fui para Italia em 7 de Janeiro de 1871, chegando a Roma a 17, onde me demorei até ao dia 27 de Julho de 1872.

Data da sua volta a Portugal.

Na volta visitei, com as minhas economias, as principaes cidades de Itália, tornei a Paris e vim por Madrid e Lisboa, chegando a Gaya n’um dos primeiros dias de Setem.bro de 1872. Enquanto estive em Paris, esquecia-me dizer, visitei Londres e algumas cidades da França: Marseilha, Lion, Nimes, Arles etc.

Se tornou a sahir do reino, depois da volta como pensionista?

Bem contra minha vontade nunca sahi mais para o estrangeiro, depois de se me acabar a pensão.

Lista completa das suas obras; dimensões d’ellas.

Emquanto frequentei a Academia  do Porto fiz os estudos que o regulamento manda e, que em geral constão de copias de estampas, do gesso e do modelo vivo, sendo só no 5º anno permitido aos alumnos fazer estudos ou obras originaes. Em harmonia com esse regulamento fiz para exame de 5º anno de esculptura uma estatueta de 1m de alto, representando Viriato, e para exame de architectura civil o projeco de um theatro. No concurso para pensionista fiz, segundo o programma, uma cabeça pelo natural de dimensões um pouco colossaes, uma academia modelada em baixo relevo igualmente pelo natural e um esboceto em baixo relevo, em gabinete fechado, representando Argo e Mercurio. Fora da Academia fiz um busto (terre cuite). No estrangeiro, alem dos estudos pelo natural e pelo gesso, tanto em desenho como esculptura que mandei para a Academia executei, em Roma, em marmore de Carrara de 1ª qualidade a estatua de grandeza natural o Desterrado, como ultima prova do meu aproveitamento. N’esta cidade fiz também nas horas vagas, e com a collaboração do meu collega Simões d’Almeida, o retrato em medalhão de D. A. Sequeira[3] de marmore e segundo uma reprodução em ponto pequeno do busto do nosso artista, feito por Tenerani seu amigo.

Depois de terminada a pensão tenho feito as seguintes obras: – Para canteiros, 4 estatuetas em gesso, representando o Trabalho, Riqueza, Musica e Historia, de pouco mais de dous terços do tamanho natural; 1 Anjo, em gesso, com os emblemas da paixão de Christo 1.32; 1 Carpideira em gesso de dous terços de tamanho natural;  1 Tempo em gesso de 0.90 de alto; 1 Saudade em gesso de 0.77; 1 Mercurio sentado, de 0.50. – Para fabrica de louça, 1 Neptuno, 1 Juno, 1 Jupiter e 1 Dansarina, imitação das da Canova, tendo cada uma (excepto  a dansarina que era maior) 0.60 pouco mais ou menos. – Para igrejas, 1 Christo morto, de madeira deitado, do tamanho natural, 1 Senhora da Victoria 1.20 igualmente de Madeira, 1 Senhora das Dores, de roca e quasi do tamanho natural, madeira; 1 Coração de Maria 1.20, madeira; 1 Christo na cruz para casa particular 0.54 madeira; 1 baixo-relevo[4] de fórma circular representando Apolo no carro, puchado por quatro cavallos 1.00; 1 centro de tecto, composição de ornato e meninos, meio corpo, tenho pouco mais ou menos 2.00 por 1.00 – Para Illustrações, 1 desenho para a capa do D. Jaime de Thomaz Rib.ro; 2 desenhos da minha estatua o Desterrado; 1 Artista da Infancia; 1 Prestes a deixar a casa, scena das inundações  de 1876; 1 o naufragio do vapor Olga; 1 o incendio nos Guindaes; 1 a inauguração do monumento a D. Pedro 5º em Braga; e os desenhos para a nova edição dos Lusiadas de Camões, que está em via de publicação.

Em marmore de carrara de 1ª qualidade tenho tenho executado: os bustos do Visconde de Tamandaré, Marquez do Herval, F. Pinto Bessa, de 0.90 cada um; e de D.gos  d’Almeida Rib.ro de 0.75; uma cabeça de preto, creança; a estatua sentada O artista na infancia de 0.74; e em marmore de 2ª a estatua colossal do C. (Conde) de Ferreira de 2.50. Fiz um projecto do monumento dos Restauradores de 1640 para um concurso que se malogrou.

Data da sua exposição ao publico; seus actuaes possuidores.

Os trabalhos de Architectura e Esculptura, executados para exame de 5º anno na nossa Academia, juntamente com o esboceto baixo relevo feito em gabinete fechado, representando o gigante Anteo esmagado por Hercules, foram expostos na 9ª exposição trienal em 1866, como provas para o concurso trienal nas duas especialidades e pertencem á academia. O busto terre cuite do possuidor dr. Lima e Costa nunca foi exposto. Os trabalhos para o concurso de pensionista pertencem á Academia e acham-se expostos no muzeu.

Os estudos que enviei de Paris foram expostos na 10ª exposição trienal em 1869 e acham-se igualmente no muzeu, pertencendo á academia.

A estatua o Desterrado foi exposta na 11ª exposição trienal em 1874 juntamente com uma estatueta em gesso, o Pescador, feita em Paris, e outros trabalhos que adiante menciono, pertencendo estes á Academia. O medalhão de D. A. Sequeira (incompleto) deve existir no hospicio de S. Antonio dos Portugueses em Roma, porque foi com esse fim que se fez, pelo menos para lembrar, na falta de outra qualquer indicação, que o grande artista está ali sepultado.

As estatuetas Trabalho, Riqueza, Musica e História pertencem ao Snr. Antonio Moreira Rato de lisboa, e nunca foram expostas.

O Anjo, a Carpideira e o Tempo pertencem ao Snr. José Amatucci, d’esta cidade, tendo sido exposta a 1ª destas figuras na 11ª exposição trienal em 1874.

A Saudade e o Mercurio pertencem ao Snr. Laurentino José da Silva, d’esta cidade, e estam a ser reproduzidas em ponto grande, em marmore de 2ª para um tumulo.

O Neptuno, a Juno, o Jupiter e a Dançarina pertencem á fábrica de louça de João dos Rios em V. N. de Gaya, e algumas (salvo o erro) foram expostas na Exposição de Viena.

O Christo morto, de tamanho natural, pertence á confraria das almas de S. Christovão de Mafamude. O Christo na cruz pertence ao Snr. J. Bento Ramos Pereira d’esta cidade.

A S.ra da Victória acha-se na sua respectiva igreja d’esta cidade. A S.ra das Dores e Coração de Maria foram encomendadas pelo Snr. A. P. Mattos Chaves de Guimarães e acham-se n’esta cidade.

Os estuques o que representa Apolo etc. Acha-se na casa do Snr. Joaquim Ferreira de Campos em Mafamude, e o outro em casa do Snr. A. José da Silva em V. N. de Gaya.

Qualquer dos desenhos em madeira, da minha estatua o Desterrado nunca foi publicado. O Artista na infância foi publicado na Gravura em Madeira em 1877. O da scena da inundação , na mesma publicação em 1876. O do naufragio do vapor Olga no N.º 26 do Occidente 1879. O do incendio no N.º 28, 1879 da mesma publicação. O da inauguração do monumento a D. Pedro V no N.º 40, 1879 da mesma publicação.

Os bustos do V. De Tamandaré e Marquez do Herval foram expostos em Lisboa em 1875 e acham-se no Rio de Janeiro. O busto de F. Pinto Bessa pertencerá á Camara Municipal d’esta cidade e ainda não foi exposto. O modelo do busto de D.gos d’Almeida Ribeiro foi exposto na 12ª exposição trienal, e anteriormente na da Sociedade Promotora em 1875, pertencendo á Academia portuense; e a reprodução em marmore de 1ª esteve em Lisboa, antes de ir para a exposição de Paris, e depois no museu em S. Lazaro n’esta cidade, pertencendo ao retratado.

A cabeça de preto, em marmore, esteve na 11ª exposição trienal em 1874 e no anno seguinte na da S.de Promotora, pertencendo ao Snr. F.co de Oliveira Chamiço de Lisboa. O modelo do artista na infancia, na mesma exposição trienal e no anno seguinte na da S.de Prom.ra; e a reproducção em marmore de 1ª esteve na Exposição de Paris e anteriormente em Lisboa, pertencendo á S.ra Duqueza de Palmela.

O modelo da estatua do C. (Conde) de Ferreira acha-se na Academia portuense, á qual pertence; e a reprodução em marmore encima (sic) o monumento levantado á sua memoria a Agramonte.

 Preço das obras que lhe foram encommendadas officialmente. Em geral, quaes as condições dos contractos, tempo prescrito para as obras; concursos, concorrentes, etc.

 Em geral não tenho feito as minhas obras em prasos determinados, e os preços d’ellas tem sido os seguintes:

Trabalho, Riqueza, historia e musica . . . . . . . 420$000

Carpideira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40$000

Anjo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22$500

Tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40$000

Saudade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27$000

Neptuno, Jupiter, Juno e Dançarina . . . . . . . .135$000

Christo na cruz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90$000

N. S.ra da Victoria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .175$000

Idem das Dores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100$000

Coração de Maria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200$000

Lusiadas, cada desenho . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45$000

Marquez do Herval e V.de de Tamandaré[5] . . 720$000

Pinto Bessa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .450$000

Artista na infancia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .600$000

C. (Conde) Ferreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1:700$000

Não aponto outros trabalhos porque, ou tenho recebido por eles uma simples remoneração (sic). ou tenho-os feito gratis

Obras que tem de encommenda actualmente.

Saudade em marmore de 1ª, quasi acabada, para Snr. F.co d’Oliveira Chamiço.

Quaes os seus titulos e distinções na Academia ou fóra d’ella; data d’esses titulos.

Fui nomeado academico de merito da Academia do Porto em 6 de Dezembro de 1872 e igualmente da de Lisboa em 1 de Abril de 1875.

De onde recebe os seus materiaes, marmores etc.

O barro de que me sirvo é do das fabricas de louça d’esta cidade; o gesso igualmente de cá; e os marmores, 1ª e 2ª qualidade, são de Carrara.

Se o autor está em relação directa ou indirecta com as artes industriaes do paiz, isto é: se desenha, modela ou esculpe para estabelecimentos d’artes industriaes.

Pela lista de alguns trabalhos já indicados vê-se que tenho estado algumas vezes em relação com a arte industrial.

Quaes os concursos a que tem ido?

Apenas concorri ao concurso para o monumento aos Restauradores, concurso que depois de muitas e variadas peripecias se anulou, sem que os concorrentes melhor classificados tenham recebido os premios promettidos ou sequer uma indeminisação dos prejuisos que tiveram.

Quaes as condições em que concorreu á exposição de Paris do 1878; isto é: quaes as garantias ou promeças do governo portuguez, e como foram cumpridas?

 Concorri á Exposição de Paris animado com a promessa de 3:000$000, que seriam distribuidos pelos artistas que fossem permeados; o Governo, porém, só ha pouco tempo é que se lembrou de dar a terça parte d’aquella quantia (que sempre é melhor do que absolutamente nada), cabendo-me duzentos mil reis.

(Autobiografia de Soares dos Reis; Os Amigos de Gaia, Maio de 1989; pp. 75 à 79.)


[1] Não me tem sido possível saber-lhe o nome (nota de Soares dos Reis)

[2] Leia-se Heuzey, arquelogo francês.

[3] O pintor Domingos António Sequeira.

[4] Este baixo relevo foi feito depois de vir de Paris pela 1ª vez. (Reis).

[5] Excepto o marmore. (Reis).

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