Paris

1867 - 17367.01 TC -

O Busto de Firmino, 1867

Paris (1867 – 1870)

Tinha Soares dos Reis terminado os estudos na A.P.B.A., em Agosto de 1867, quando abriu o concurso para pensionista do Estado no estrangeiro. Concorreu à bolsa de escultura, tendo ficado aprovado, por unanimidade, em 31 de Agosto de 1867.

Ainda que não tenha havido outros concorrentes à bolsa de escultura, teve que se submeter à realização de várias provas, as quais consistiram na modelação de uma cabeça pelo natural (Busto de Firmino), uma figura de tamanho natural (Academia), um baixo-relevo (Mercúrio adormecendoArgos ao som de uma Flauta) e um esboceto sem modelo (sem mais informação), feitos em gabinete fechado.

Saiu de Vila Nova de Gaia no dia 27 de Outubro de 1867 e chegou a Paris a 6 de Novembro do mesmo ano, onde viveu durante os três anos seguintes, até ser obrigado a partir por causa da guerra franco-prussiana. Acompanhou-o para Paris, também na qualidade de bolseiro, mas de arquitectura, o seu colega e amigo José Geraldo da Silva Sardinha.

Soares dos Reis levava dois objectivos: a admissão no atelier de Jouffroy, a quem ia dirigido, e a admissão na École Imperiale et Speciale des Beaux Arts (E.I.S.B.A.). Ambos os objectivos foram difíceis de alcançar, o primeiro demorou pouco menos de 3 meses e o segundo só o viu concretizado mais de um ano após a sua chegada.

Os ateliersdos mestres pertenciam à E.I.S.B.A. e por isso, para que um aluno estrangeiro pudesse ser admitido num desses ateliers, era necessária a permissão do superintendente da escola. O Ministro de Portugal em Paris fez chegar à

E.I.S.B.A. uma petição para que Soares dos Reis pudesse ser admitido no atelier de Jouffroy, mas a mesma teve resposta negativa: foi alegado que o número de lugares estava já completo e por isso não podiam ser admitidos mais alunos. Como última solução, o futuro escultor acabou por pedir a intercepção do próprio Jouffroy junto à E.I.S.B.A.  para que fosse dada  premissão ao aluno de frequentar o seu atelier.  Jouffroy assim o fez, pediu pessoalmente junto ao superintendente da Escola, pela admissão de Soares dos Reis, e a resposta foi positiva. O bolseiro pode começar a frequentar o atelier a partir de 14 de Janeiro de 1868.

Ainda nesse ano concorreu para ser admitido como aluno da E.I.S.B.A., mas sem sucesso. Só no ano seguinte conseguiria a tão almejada admissão.

Durante o período em que esteve à espera de ser admitido aproveitou para visitar museus, igrejas, ruínas e todo e qualquer local onde houvesse uma peça de arte, assimilando tudo o quanto podia, tirando anotações e copiando para o seu caderno, de modo a enriquecer os seus conhecimentos e aumentar a sua sensibilidade . Um dos acontecimentos que mais o impressionou foi a abertura do SALON de 1868.

Quando finalmente, em Abril de 1869 foi admitido na E.I.S.B.A., nas discíplinas de Desenho e Escultura, passou a ter como mestres Ivon no desenho; Jouffroy na escultura e Taine professor de Filosofia da Arte e mestre do positivismo.

Após a admissão,  conseguiu um excelente aproveitamento obtendo várias distinções: o 1º lugar do concurso de recepção em escultura (na sua 3ª participação neste concurso); duas 3as medalhas em concurso de escultura do vivo e do antigo; 3ª e 2ª em concursos de desenho pelo vivo (únicos prémios que se concediam nesses concursos) e um 1º prémio pecuniário de 300 francos na exposição anual dos trabalhos dos alunos da escola.

Para além de numerosos prémios foi conquistando a admiração de mestres e colegas que lhe chamavam Voleur de prix, numa expressão brincalhona mas ao mesmo tempo admirativa. Neste período executou obras de relevo como Le tireur d’ épines (1869)  e O Pescador (1870) que, apesar de serem ainda muito académicos, já mostravam traços do grande escultor que se tornaria Soares dos Reis.

Quando, em 1870, começou a guerra franco-prussiana, os alunos das Academias de Belas Artes, quer de Lisboa quer do Porto, que se encontravam como bolseiros em Paris, viram-se obrigados a regressar ao país. No entanto, não sem antes procurarem uma solução para que o pensionato não cessasse com o abandono do país em que se encontravam.

No regresso a Portugal, demorou-se em Bayonne, à espera do comboio, e aproveitou esse tempo para desenhar a paisagem que avistava – uma fortificação vista da ponte de Adour – num cartão de visita que trazia consigo. Mas vivia-se então um período de conflito bélico e todo o cuidado era pouco, ou pelo menos assim pensaram os guardas franceses que tomaram o escultor por espião e o levaram preso! Não tardou que o mal-entendido se esclarecesse e em poucas horas a sua inocência fosse provada, mas até lá ficou a ferros, na cadeia de St. Esprit

Le Tireur d’épines, 1869

De regresso a Portugal instalou-se em Vila Nova de Gaia, onde permaneceu cerca de dois meses até partir, novamente como bolseiro, para Roma.

Sobre a estadia de Soares dos Reis em Paris é frequente os autores afirmarem que lhe foi penosa, conclusão a que poderão ter chegado por duas vias: a primeira terá sido à força de tantas vezes verem essa afirmação repetida, ainda que sem a justificarem; a segunda à custa da interpretação de uma carta que, o então bolseiro, enviou para a A.P.B.A. onde usa expressões como: Julgava então mais curto e menos árduo o caminho, que tinha a percorrer, cria-o ameno e sem espinhos. Em breve se desfez tão fagueira illusão, sucedendo-lhe a agra verdade, que poz a descoberto a vereda necessária . No entanto, se analisarmos melhor essa carta, assim como as outras que existem desse período, podemos perceber que este seu descontentamento poderá não ser para com a cidade mas sim com as dificuldades que encontrou para conseguir entrar, primeiro, no atelier de um dos mestres da E.I.S.B.A. e, depois, como aluno ordinário da própria escola. Na carta que envia à A.P.B.A., após ter finalmente conseguido entrar na E.I.S.B.A., Soares dos Reis diz: Foi pouco o tempo para me habituar às exigencias dos concursos e tirar d’elles os devidos resultados; porem espero, se me fôr concedido por mais tempo a permissão de aqui ficar, colher valiosos fructos no caminho que apenas encetei, o que leva a crer que, resolvida a questão da Escola havia, por parte dele, o desejo de permanecer na cidade, o que não aconteceria caso esta lhe fosse desagradável. Além do mais, quando regressou a Portugal após o fim do pensionato em Roma, aproveitou para visitar vários locais, entre os quais Paris e, anos mais tarde, quando teve novamente oportunidade de viajar para fora do país, um dos locais que decidiu rever foi a cidade das Luzes, onde participou na Exposição Universal de Paris de 1878 com a estátua O Artista na Infância e o busto de Domingos de Almeida Ribeiro, pelos quais lhe foi atribuída uma menção honrosa.