Roma

Roma (1871-1872)

Após o abandono forçado de Paris, os pensionistas, quer de Lisboa quer do Porto, viram aprovado o pedido de continuação, desta vez em Itália, do restante período do pensionato que tiveram de interromper. Foi a 17 de Janeiro de 1871 que Soares dos Reis chegou a Roma, instalando-se no Instituto de Santo António dos Portugueses, onde veio a encontrar Miguel dos Santos e Simões de Almeida (1844-1926).

Miguel dos Santos e Simões de Almeida eram ambos escultores. O primeiro havia ido para Roma em 1869 onde vivia sem qualquer apoio ou subsídio do Estado, subsistindo, com grande sacrifício, com os prémios que anualmente lhe dava a Academia. Já José Simões de Almeida fora para Itália nas mesmas circunstâncias que Soares dos Reis, como pensionista fugido da guerra em França.

Em Roma não frequentou nenhuma Academia, nem trabalhou sob a orientação de qualquer mestre. É o próprio Soares dos Reis que, na sua autobiografia, nos esclarece sobre este assunto ao informar que: Conquanto me fosse indicado o distincto estatuário Jiulio Monteverde para meu professor, nunca trabalhei sob a direcção d’elle.

Mas não foi por isso que trabalhou menos, já que segundo o Mons. José de Castro no seu artigo Soares dos Reis em Roma, o autor refere: O Conde de Tomar admirava-se daquele rapaz que trabalhava sem repouso, que fazia e desfazia, com alternativas de exaltação e abatimento, de prazer e desgosto, sempre insatisfeito dos resultados obtidos. Os admiradores correm a santo António, com grande vaidade para o Conde de Tomar. Aquele rapaz de 24 anos impressionara o ambiente artístico.

Em Roma começa a sua estátua O Desterrado que, depois de modelada, deixou em Roma, partindo para visitar outras terras italianas. Segundo o escultor Diogo de Macedo (1889-1959), esta sua saída de Roma deveu-se ao facto de que com a modelação do Desterrado Soares dos Reis Tinha desabafado uma grande mágoa e precisou de ir respirar novos ares.

O Desterrado, 1872

Nos últimos meses de 1871 foi informado de que as verbas dadas aos pensionistas, que se encontram no estrangeiro, iriam ser suspensas e que estes deveriam regressar a Portugal até ao fim do mês de Outubro ainda desse ano. Para tal seria concedido, a cada um deles, a soma de sessenta mil reis para que pudessem fazer a viagem de regresso. Esta nova realidade apresentava-se como um enorme problema para Soares dos Reis, que já tinha gasto tudo o que recebera na aquisição do mármore para a realização d’O Desterrado e das obrigações que contraíra com o mesmo. Além disso, também já tinha dado início ao desbaste da peça e não a conseguiria terminar em tempo útil para cumprir as novas directrizes. Perante tal situação, e sem saber como proceder, pediu ao seu amigo Conde de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889), que fora quem o informara da situação, ajuda sobre como proceder. Este aconselhou-o a escrever, de imediato, à Academia de Belas Artes solicitando que o seu caso fosse apresentado ao Corpo Académico e ao Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), na esperança que estes pudessem interferir na decisão tomada pela Comissão Financial do Governo Português em Londres.

Entretanto, Soares dos Reis, foi vivendo conforme pode, com o pouco que lhe restava, até que, muito possivelmente graças à interferência do Conde de Tomar, lhe aprovaram o prolongamento da estadia em Roma, recebendo novos subsídios para a conclusão da obra final como pensionista.

Com o prazo alargado, mas ainda assim impossível de satisfazer, não conseguiu terminar a obra em Roma enviando-a, ainda inacabada, para a Academia Portuense de Belas Artes. Como auxílio para a finalizar tirou moldes, ao natural, do modelo vivo, deixando os gessos em Santo António dos Portugueses. Esta é a versão mais divulgada, aparecendo em quase todas as biografias do artista, no entanto, Mons. José de Castro, no artigo Soares dos Reis em Roma, com o qual participa na obra de homenagem Soares dos Reis: in Memoriam, conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos, dando a entender que o escultor teria conseguido terminar a obra ainda em Roma enviando-a, já concluída, para a A.P.B.A.

A família, em Portugal, saudosa, insistentemente enviava correspondência expressando desejos de um breve regresso que o levasse de volta ao seio familiar. Mas, aparentemente, Soares dos Reis ficou verdadeiramente enamorado por Roma e era seu grande desejo poder permanecer na cidade que tanto lhe mostrou e ensinou, nas visitas aos seus museus e recantos históricos. Aproveitou os dias que lhe faltavam a tracejar, no seu álbum de apontamentos, as velhas ruínas históricas de que Roma é abundantemente rica.

Os últimos tempos de pensionato, já depois de enviar o mármore para a Academia, foram a “esticar” ao máximo os recursos que lhe restavam de forma a prolongar, tanto quanto fosse possível, a sua estadia naquele país. Antes de voltar para Portugal aproveitou ainda para ir visitar Florença, Nápoles, Pompeia, Poesteum, Sorrento e desta, para Capri. Em Capri tirou minuciosos apontamentos de rochas e ondas, que veio a utilizar na conclusão d’O Desterrado. De regresso a Portugal, com as suas economias, voltou a Paris, e de lá, foi até Londres. Ao retornar de Londres passou ainda por Lyon, Arles, Nimes e Marselha. Na passagem por Espanha passou ainda por Madrid e já em Portugal visitou Lisboa antes de chegar a Gaia, no início de Setembro de 1872.


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