Pensionato: de Paris a Roma

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Paris:

1868

Academia Sentada Foi a primeira prova que enviou enquanto pensionista em Paris. Cópia do modelo vivo, em gesso, executada sob a direcção de Jouffroy e assinada por este.

Academia, 1868

1869

NegroFoi obra que lhe permitiu a admissão na École Imperiale et Speciale dês Beaux Arts de Paris. Modelo nu sobre uma placa, executada sobre a direcção de Jouffroy (fiel ao neo-classicismo).

Aquiles entregando Briséis Baixo-relevo executado sobre a direcção de Jouffroy.

Aquiles entregando Briseis, 1869

Le tireur d’épines Cópia, executada sobre a direcção de Jouffroy.

Le Tireur d’épines, 1869

1870

Pescador  – Prova escolar, enviada para a Academia, rubricada por Jouffroy.

Pescador, 1970

Obra de Soares dos Reis durante os meses que mediaram entre o regresso de Paris e a partida para Roma:

 1870

Carro de Apolo – Baixo-relevo circular no centro do tecto, em estuque, representando Apolo num carro tirado por quatro cavalos. Este trabalho foi realizado para a casa do Sr.
Joaquim Teixeira de Campo, em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. Sabe-se que ainda em 1887 este baixo-relevo já tinha sido bastante alterado, possivelmente pela acção de obras de restauro realizadas “pelas ferramentas dos estucadores, que ainda não abandonaram o bárbaro costume de rapar toda a superfície de uma escultura até a deixar cheia de vincos e arestas”[6]. Actualmente faz parte da colecção do MNSR.

Carro de Apolo, 1970

Coração de Maria – Imagem em madeira policromada destinada a um Templo de Guimarães. Quando esta imagem foi levada para o seu destino, os crentes que frequentavam a Igreja começaram a implicar com ela dizendo que não se parecia em nada com as outras Santas e por isso pediram a Soares dos Reis que a retocasse e lhe desse um ar mais divino. O escultor fez-lhes a vontade mas não foi o suficiente para agradar os paroquianos que continuavam a achar que a imagem não parecia suficientemente divina. Essa falta de divindade fazia com que os paroquianos fossem perdendo fé nela e na sua capacidade de realizar milagres, o que os levou a desfazerem-se dela. A Imagem andou em leilão pelas sacristias, acabando por ir parar a lugar desconhecido.

Tempo– Trabalho para canteiro, foi modelado em gesso e representa uma alegoria do Tempo.

General João José de Lima Costa –Busto em barro cozido.

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Roma:

1871

Domingos Sequeira – Trata-se de um retrato em medalhão, feito em mármore, durante o pensionato em Roma. Para este retrato serviu-se de uma reprodução, em ponto pequeno, do busto do artista, feito pelo seu amigo Tenerani.

1871/72

O Desterrado Em Roma começou a sua estátua O Desterrado que, depois de modelada, deixou em Roma, partindo para visitar outras terras italianas. Segundo o escultor Diogo de Macedo (1889-1959), esta sua saída de Roma deveu-se ao facto de que com a modelação do Desterrado Soares dos Reis “Tinha desabafado uma grande mágoa e precisou de ir respirar novos ares”.  Estátua de grandeza natural, em mármore de Carrara de 1ª qualidade – foi a sua prova de aproveitamento do pensionato nesse país. É a sua obra mais conhecida mas também uma das que mais dissabores lhe trouxe.

Nos últimos meses de 1871 foi informado da suspensão das verbas que eram dadas aos pensionistas no estrangeiro  e que estes deveriam regressar a Portugal até ao fim do mês de Outubro desse ano. Para tal era concedido, a cada um deles, a soma de sessenta mil reis para que pudessem fazer a viagem de regresso. Isto foi um grande problema para Soares dos Reis, que já tinha gasto tudo o que recebera na aquisição do mármore para a realização desta estátua e das obrigações que contraíra com a mesma. Além disso, também já tinha dado início ao desbaste da peça e não a conseguiria terminar em tempo útil para cumprir as novas directrizes. Perante isto escreveu à Academia de Belas Artes solicitando que o seu caso fosse apresentado ao Corpo Académico e ao Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), na esperança que estes pudessem interferir na decisão tomada pela Comissão Financial do Governo Português em Londres.

Entretanto foi vivendo conforme podia, com o pouco que lhe restava, até  lhe aprovarem o prolongamento da estadia em Roma, recebendo novos subsídios para a conclusão da obra final como pensionista.

Com o prazo alargado, mas ainda assim impossível de satisfazer, não conseguiu terminar a obra em Roma enviando-a, ainda inacabada, para a Academia Portuense de Belas Artes[1]. Como auxílio para a finalizar tirou moldes, ao natural, do modelo vivo, deixando os gessos em Santo António dos Portugueses. Esta é a versão mais divulgada, aparecendo em quase todas as biografias do artista, no entanto, Mons. José de Castro, no artigo Soares dos Reis em Roma, com o qual participa na obra de homenagem Soares dos Reis: in Memoriam, conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos, dando a entender que o escultor teria conseguido terminar a obra ainda em Roma enviando-a, já concluída, para a A.P.B.A.

Em 1881 levou a obra à Exposição de Madrid onde ganhou a 1ª medalha e foi agraciado com o grau de cavaleiro da ordem de Carlos III. Foi nessa altura que, através de um jornal de Lisboa, foi lançada uma campanha, que negava a autoria d’ O Desterrado a Soares dos Reis. Provar que tudo de que o incriminavam não passavam de falsas acusações,  foi algo que rapidamente conseguiu fazer através de documentação que pediu que lhe enviassem de Roma, mas nunca conseguiu esquecer ou perdoar esta infâmia perpetrada contra si.

O Desterrado, 1872


 [1] Mas a estátua para cujo mármore havia concedido, segundo a praxe estabelecida, os invariáveis 360$000, não estava ainda concluida no princípio de Março de 18 de 1872. Precisava de mais tempo e o governo declarou que não dava mais um vintem, suspendendo-lhe em Março a pensão habitual de 50$000 e mandou-lhe 60$000 para o regresso a Portugal. Mesmo desamparado, continuou a trabalhar. A 1 de Junho de 1872 o Conde de Tomar vem em seu auxílio junto de António Rodrigues de Sampaio, que a 23 de Julho resolveu pagar-lhe as pensões atrasadas e as que fossem precisas. Mas Soares não quer mais de 20 dias para a conclusão da estátua desejando somente que o poupassem à despesa do transporte para a Academia Portuense das Belas-Artes. (…) A estátua conclui-se rápidamenete comassombro geral. A mesma veio para Portugal e o gesso deixou-o de presente e lembrança ao Instituto de Santo António. in Mons. José de Castro (s.d.);Soares dos Reis em Roma,  Soares dos Reis: in Memoriam.

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