Execução do projecto do arquitecto José Geraldo Sardinha

Quando mudou a sua oficina para a Rua Luís de Camões, Soares dos Reis fê-lo para estar mais perto da família, nessa época composta de seus pais e de sua irmã Engrácia.

A casa acabou por ficar à beira da rua, mas pelo primeiro projecto, deveria ter sido construída no meio de um parque ajardinado. Desse primeiro projecto, casa e jardim, existe um croqui que ele próprio desenhou, a pedido do amigo Diogo José de Macedo Júnior, numa pequena folha de papel quadriculado, que muito possivelmente corresponde ao que se encontra hoje no MNSR.

Croqui da casa desenhado por Soares dos Reis (N.º Inv. 32069 TC)

Escolheu um terreno na Rua Luíz de Camões, em Vila Nova de Gaia, do lado que desce para o rio, embora muito longe deste, mais próximo do que é hoje a Avenida da República, e deixou o projecto a cargo do arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906), seu antigo companheiro de pensionato em Paris e amigo de longa data. Os documentos mais antigos a respeito desta casa remontam a 1876 e referem-se ao projecto da casa-oficina que Soares dos Reis apresentou à Câmara em sessão de vereação, a 25 de Agosto de 1876, e o alvará com que a mesma autorizou a construção do edifício. É de notar que o projecto da referida casa-oficina foi encontrado nos anos quarenta do séc. XX, nos Arquivos da Câmara de Gaia, conforme nota do Jornal de Notícias de Junho de 1944:

Aquando a mudança do arquivo foi encontrado o projecto da casa-ofícina do artista, feito por ele próprio. Esse projecto fora presente em sessão da vereação de 25 de Agosto de 1867 [1] (SIC),   merecendo a aprovação da Câmara, pelo que além da assinatura do seu autor, tem a assinatura de todos os vereadores.

A casa-ofícina a que o projecto se refere diz respeito foi edificada na rua Luís de Camões.

A dita casa já deu origem a várias discussões, aventando-se que o Município deveria interessar-se pela sua aquisição.

 Desde então o seu paradeiro voltou a ser desconhecido, tendo sido precisamente através dessa notícia que se tomou conhecimento da data exacta em que o projecto foi sujeito à sessão de vereação.

Sobre a casa propriamente dita, a descrição mais antiga que encontramos é de 1889 do Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista onde segundo as palavras do Dr. Alves Mendes:

A casa no final do séc. XIX

O atelier compunha-se de três corpos interiores. O central, vasto e desafogado, para o trabalho; o da esquerda, dividido em pequenos compartimentos, para habitação; e o da direita, que nunca chegou a concluir-se, destinou-se promiscuamente a armazem, galinheiro e pombal. Nas trazeiras, em um pedasso de terreno, dispôs um pequeno jardim em que as flores os arbustos se entremeavam com os frutos e com grandes pés de alcachofras (legume pelo qual tinha especial predilecção). (…) A jardinagem era uma das suas paixões.A entrada para o atelier abria-se, pelo lado do jardim. Era junto dessa entrada que se viam, meias envoltas pelas heras, as pedras da interessante janela de estilo romanico, que pertencera ao velho edifício que existia na rua da Reboleira e que foi destruido para a abertura da rua Nova Alfandega… Quando a casa foi demolida, comprou por alguns vintens a  janella e levou-a para casa.Interiormente o atelier nada oferecia de extraordinário. Nem luxos de decoração, nem abundancias de objectos de arte. A simples oficina de um trabalhador.O atelier comunicava por uma porta com a casa de habitação. Uma sala de visitas, o quarto de dormir, a cosinha, e a sala de jantar. Tudo ao rés do chão e de pequenas dimensões. Era por esses aposentos que se achavam disseminados os quadros, os desenhos, as aguarelas e os medalhões que Soares dos Reis adquirira em algumas exposições artisticas, ou que lhe haviam sido oferecidos por amigos. Entre essas obras de arte avultavam o seu retrato, pintado por Marques de Oliveira e um outro retrato em medalhão, modelado pelo escultor Simões de Almeida e reproduzido em bronze pela galvanoplastia. Muitos dos quadros que ornavam as paredes comprára-os Soares dos Reis nas exposições de belas artes realizadas “n’esta cidade”. O aumento da família sugeria-lhe a ideia de erguer mais um andar ao atelier.[2]


[1] A data correcta é 1876, terá sido erro do jornalista ou erro de impressão.

[2] Dr. Alves Mendes (1889), Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista; pp. 25 e 26.