Do Corpo

Ao longo da sua vida Soares dos Reis foi frequentemente acometido por uma maleita desconhecida que o atirava para a cama por longos períodos de tempo, impedindo-o de trabalhar e obrigando-o a ficar dependente de cuidados de terceiros, normalmente da sua mãe. Numa carta, de 10 de Dezembro de 1884, que envia a José António Gaspar em que se pode ler-se o seguinte:

Am.o Gaspar/ Hum incidente bem desagradavel vem interromper (e quem sabe se para sempre) as nossas combinações com relação ao monumento de D. Affonso Henriques para Guimarães. Diz-me o doutor que devo responder laconicamente: pois é o que faço participando-lhe que o incidente de que acima falo é nada menos do que uma doença grave, aquella para que sempre tive predisposições, que agora me atacou deveras. Lembranças a todos e até outra vez se esta não for a ultima.

Sobre este mal nada se sabe, já que o próprio escultor é também desconhecedor da sua origem. É um assunto que pouco se vê referido mas que poderá ter igualmente contribuído para a depressão em que o escultor mergulhou nos últimos anos da sua vida. O próprio, numa outra carta a José António Gaspar informa-o que:

A este respeito que é hoje o que mais me interessa nada posso dizer-lhe porque me parece que estou sempre na mesma. Todos me aporrinham com conselhos, não ouso (sic) senão: tenha cuidado, tenha cautela, de forma que já não sei o que devo fazer nem o que devo pensar de mim mesmo. O que é mais curioso é que a final ainda não sei qual é a molestia ou se são mais do que uma ou até se não é nenhuma. Isto chama-se vegetar e não viver, e posso assegurar-lhe que n’estas condições a vida é pouco interessante: no entanto não vá julgar que tenho alguma idea de dar cabo d’ella, isso não.

Numa carta que Torcato Pinheiro dirige José António Gaspar ficamos a saber que a doença a que Soares dos Reis se refere na carta anterior o atirou para a cama por um período aproximado de um mês,

Tenho a dar-lhe boas novas. O nosso Soares levantou-se pela primeira vez neste momento, 10 de Janeiro de 85, às 2 horas da tarde.

Quando, em 1887, terminou finalmente a Estátua de Afonso Henriques, para Guimarães, a sua saúde voltou a piorar e em carta dirigida à Academia Portuense de Belas Artes, com data de 1 de Agosto, informa que esteve recentemente instalado numa casa de saúde.

Ex.mo Sr.

Tendo sido obrigado repentinamente a procurar uma casa de saude para tratar da minha saude sériamente comprometida, como sabe, e estando à minha disposição uma licença de que posso gozar quando precisar, participo a V. Ex.ª que desde ontem me acho em casa do Dr. Ferreira, Rua Duqueza de Bragança e se assim me for preciso gozarei todo o mês de Agosto da supradita licença.

                                                      Porto, 1 de Agosto de 1887

                                                                                                                                                                                                                                                 De V. Ex.ª

                                                                                                                                                                                                                                                Am.º e Ob.do

                                                                                                                                                                                                                                          A. Soares dos Reis.

Para mudar de ares, partiu para Lisboa, onde ficou instalado na Rua Jardim do Regedor n.º 43, sobre o que dá notícia a seu amigo Serafim Neves, em carta datada de 15 de Abril de 1888.

Histórias das vida privada – casamento e filhos

Mas a vida não era apenas trabalho e o escultor apaixonou-se por uma jovem de nome Amélia de Macedo, precisamente a neta do velho Diogo de Macedo.

Soares dos Reis e a esposa

Soares dos Reis e a esposa

Sobre este assunto é o próprio que numa carta, de 10 de Maio de 1885, dirigida a Simões de Almeida (Tio) demonstra alguma preocupação: “Vá lá, não quero terminar esta sem lhe dar uma novidade que afinal já deve saber: vou casar-me! Chegou-me a vez. Mas infelizmente veio um pouco tarde e n’uma occasião muito perigosa: veremos.”
Apesar de qualquer receio que possa ter sentido relativamente ao casamento, este acabou por se realizar a 15 de Julho de 1885. Deste enlace nasceram dois filhos, Raquel de Macedo Soares dos Reis e Fernando de Macedo Soares dos Reis, que viriam a falecer sem deixar descendência.

Filhos de António Soares dos Reis e Amélia de Macedo

Filhos de António Soares dos Reis e Amélia de Macedo

Entre o casamento e a morte do escultor passaram apenas quatro anos, período em que Soares dos Reis já se encontrava profundamente deprimido, o que poderá ter afectado o relacionamento com D. Amélia, que segundo alguns nem sempre foi o melhor. Talvez por diferença de carácter, de educação e de idade , ou quem sabe pela dificuldade que, para alguém jovem como D. Amélia, fosse conviver com uma pessoa que desde há muito vivia deprimido. Por outro lado também é frequente encontrar referência ao carinho e dedicação que D. Amélia tinha pelo marido.
Sobre este assunto pouco mais se pode fazer do que especular já que as informações que chegaram até nós são, conforme acima é demonstrado, contraditórias. O relato mais fidedigno sobre este assunto é o do próprio Soares dos Reis quando, em carta a José António Gaspar, escreve: “Desculpe-me de nada lhe dizer do meu casamento a não ser que me julgo muito feliz.”.

Raquel ainda não tinha três anos e Fernando contava com 18 meses quando o pai se suicidou. Fernando de Macedo Soares dos Reis morreu muito jovem com apenas vinte e sete anos de idade, vítima de pleurisia . Foi educado no “Colégio dos Órfãos” tendo estudado também na Academia Portuense de Belas Artes, fazendo, com distinção, os dois primeiros anos de desenho. Apesar da passagem pelas Belas Artes acabou por seguir o curso geral dos Liceus e frequentou algumas disciplinas do Instituto Comercial e Industrial do Porto. Abandonando os estudos entrou como empregado para a Foto-Bazar, onde trabalhou até ter conseguido um lugar no Banco Comercial do Porto, na secção de contabilidade, onde se manteve até ao fim da vida. Entusiástico cultor do Esperanto, que conhecia a fundo, chegou a dar aulas particulares. Dizia, quem conheceu Soares dos Reis, que Fernando era o retrato físico e moral do pai . A Actinia, revista do Foto Bazar, no nº 2 de Maio de 1915 publicou o seu retrato acompanhado de algumas palavras. Existia também um retrato seu, já no leito da morte, da autoria de João Augusto Ribeiro. Após a sua morte encontraram nos seus pertences uma carta que um amigo lhe dirigira onde o incitava a seguir a carreira do pai: “Tem talento, deve continuar”, junto à carta estava um rascunho da resposta que simplesmente dizia: “Soares dos Reis – haverá só um!”

Raquel viveu mais do que o seu irmão Fernando e, talvez por isso, não houve quem contasse histórias a seu respeito. Assim, sobre a filha de António Soares dos Reis e de Amélia de Macedo muito pouco se sabe. Existe a certidão de Baptismo, onde consta nome, data e local de nascimento. Após a morte do pai foi com a mãe e o irmão morar com os avós maternos durante cerca de 4 a 5 anos, até regressarem à casa-oficina . Acompanhou sempre a mãe a quem se dedicou toda a vida, sem nunca ter casado.

Enquanto foi viva teve sempre a esperança de ver recuperada a casa-oficina que o seu pai concebeu e onde a família viveu tantos anos. Quando a Câmara adquiriu a casa à empresa O Primeiro de Janeiro, essa esperança renasceu. A Câmara de Gaia tinha o alçado, mas não tinha a planta, no entanto Raquel dizia ser capaz de reconstituir a casa, até de olhos fechados, já que lá vivera até 1910. Raquel acreditou então que a casa seria recuperada, só tinha pena que sua mãe já o não visse, pois falecera em Agosto de 1945. Acreditava que graças aos bons propósitos d’O Primeiro de Janeiro, a firme decisão do sr. Dr. Fernando Moreira e a vontade forte do pintor Joaquim Lopes a recuperação da casa era possível . Viu surgir muitas esperanças nesse sentido sem que, no entanto, alguma se viesse a concretizar. Sempre que pôde envolveu-se directamente nas homenagens que eram prestadas a seu pai, por quem nutria grande admiração.
Guardava com grande carinho um volume do tomo V d’ As Farpas, que fora de seu pai, no qual Ramalho Ortigão falava de Soares dos Reis e onde este foi apontando, nas margens, comentários sobre com o que concordava ou não no texto .

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl1

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl1

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl2

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl2

Certidão de baptismo de Raquel

Certidão de baptismo de Raquel

Certidão de baptismo de Fernando

Certidão de baptismo de Fernando