Reforma do Ensino: Propostas

Proposta de Soares dos Reis para a Reforma do Ensino, lida ao Conselho Escolar (1882) 

“Senhores,

Tendo-se julgado necessária a reforma dos programmas das diversas aulas d’este estabelecimento de instrução artística e achando-nos aqui reunidos para tal fim, pareceu-me que tinha o dever, como professor da aula de esculptura, de dizer o que penso a tal respeito.

Espero, porém, que o empenho que em mim possam notar na defeza das indicações que vou ler, não seja interpretado de modo indevido: porque, digo-o bem alto e claramente, nunca visarei em discussões d’esta natureza a outro fim que não seja o de melhorar o ensino e conseguir dos alumnos o maximo aproveitamento.

Confiando na justiça dos meus dignos collegas começarei por dizer que acho absurdo em bellas-artes obrigar-se qualquer individuo, a ter um curso completo, em qualquer dos seus ramos, n’um determinado praso de tempo. Na arte não se dá tempo ao officio; aprende-se consoate as disposições e vontade de cada um. Contudo reconheço que é necessário um limite e tambem o estabeleço, mas não determino praso para cada um o attingir.

Tambem  me parece absurda (porque é consequencia do praso determinado) a divisão de um curso por annos.

Para prova d’isto basta lembrar que a muitos tem succedido poderem acumular o 1º e 2º anno, e não lhes ser possível nos annos restantes fazer o mesmo. Além d’isso, sabendo o alumno antecipadamente de uma pouca de applicação póde facilmente fazer os estudos que se exigem, correspondentes a cada anno, uma vez conseguida a certeza de não perder esse anno, não estuda mais, por que, segundo a phrase vulgar «nada ganharia com isso». Ora é n’isto que vae a perda de um tempo precioso, envolvendo ao mesmo tempo aquelle facto uma injustiça para os que trabalham e possuem mais decidida vocação, visto não se lhes permitir caminhar.

É por estas circusntancias, senhores, que me lembrei de adoptar e propor o que pouco mais ou menos em tempo e não sei se ainda hoje, era seguido na escola de bellas-artes de Paris, destinguindo os alumnos por classes, e dividindo o curso em graus attingiveis só por meio de provas em concursos mensaes, bimensaes ou trimestraes.

Estabeleço três classes de alumnos 3ª, 2ª e 1ª, e divido o curso em 5 graus.

A 3ª classe comprehende o 1º e 2º grau, a 2ª o 3º e 4º, a 1ª o 5º.

Para harmonisar de certo modo o que está estabelecido com o que proponho, faço corresponder o 1º e 2º grau ao 1º e 2º anno, o 3º e 4º grau ao 3º e 4º anno, o 5º grau ao 5º anno.

Posto isto, apresentarei umas bases de regulamento e programma dos estudos propriamente ditos.

Não será admittido a matricula no 1º grau do curso de esculptura aquelle que não tiver approvação no curso de desenho e modelação ornamental ou decorativa, logo que este curso esteja estabelecido n’esta escola.

Nenhum alumno poderá attingir um grau superior àquelle em que estiver matriculado sem que obtenha por meio de provas feitas em concurso um determinado numero de valores.

Logo que o alumno attinja o 5º grau e tenha n’elle approvação pode considerar-se com o curso completo.

O que está em prática relativamente a distinções póde continuar, com a condição porém de que os premios pecuniarios sejam conhecidos só aos que durante o anno lectivo conseguirem obter o maior número de valores.

No 1º e 2º grau farão os alumnos estudos de pés, mãos, cabeças, dorsos, pernas e braços.

No 3º e 4º grau estudos em baixo relevo pelo antigo e pelo natural, e estudos em composição em baixo relevo e pleno relevo, e de roupagens.

No 5º grau estudos de composição e pelo modelo vivo em pleno relevo, sendo obrigados para completarem o curso a terem approvação nos cursos de anatomia e história e archeologia, logo que estes cursos sejam creados.

Deve dar-se liberdade aos alumnos de fazerem estudos superiores mas sem prejuízo dos inferiores a que forem obrigados.”

(Fonte: Antunes, Joaquim Manuel M. (1989), Soares dos Reis e a Reforma do Ensino, B.A.C.A.G., Maio, pp. 66-67)

Proposta do Programa e do regulamento do Curso de Escultura, por Soares dos Reis (1886)

 

Programa do Curso de Esculptura

 1º ANNO

Cópias do gêsso – Cabeças, mãos e pés.

2º ANNO

Cópias do gêsso – Dorsos, braços e pernas. Esboços (baixo relevo) de figuras copiadas de estatuas.

3º ANNO

Cópias (baixo relevo) de estatuas de diversos estylos. Estudos de figura (baixo relevo) pelo modêlo vivo. Cópias esboçadas de composição (baixo relevo) em diversos estylos.

4º ANNO

Cópias (baixo ou pleno relevo) de estatuas de diversos estylos. Estudos de cabeças pelo modêlo vivo.

Estudos de figura (baixo ou pleno relevo) pelo modelo vivo. Estudos (baixo relevo) de pannejamentos copiados de esculpturas de diversos estylos. Esbocetos (baixo ou pleno relevo) de composição sobre assumptos mythologicos ou biblicos.

5º ANNO

Estudos (pleno relevo) pelo modêlo vivo em attitude adequada a um assumpto dado.

Estudos de cabeças pelo modêlo vivo com expressão determinada. Estudos de pannejamentos (baixo ou pleno relevo) pelo natural, com estylo determinado. Esbocetos de composição (baixo ou pleno relevo) sobre assumptos historicos ou allegoricos. Os alumnos que depois de concluido o curso quizerem praticar no marmore, assim o poderão fazer trazendo os materiaes e ferramentas necessarias.

Regulamento do Curso de Esculptura

Matricula

1.º – Para ser admitido à matricula do 1.º anno do curso de esculptura são necessarias, approvação no 2.º anno do curso de desenho d’esta Escola ou as provas equivalentes, feitas dentro da mesma, no espaço de um mez.

Exames de frequência

2.º – Os alumnos d’este curso são obrigados a fazer todos os estudos do respectivo programma, determinados pelo professor, e nos prazos por elle marcados, tendo de apresentar, os de 4.º anno, um estudo de composição cada mez, e os de 5.º anno, dous.

3.º- Todos os estudos de cada alumno serão conservados para serem classificados no fim de cada mez.

4.º – Em todos os trimestres serão sommados os valores obtidos na classificação mensal, constituindo o resultado, o exame de frequencia.

5.º – Os alumnos de 5.º anno são obrigados a fazer até ao fim do mez de maio do anno lectivo, os estudos do terceiro exame de frequencia.

6.º – Os alumnos que nos dous primeiros trimestres obtiverem 32 valores, poderão passar aos estudos do anno seguinte, sendo comtudo obrigados a fazer a prova mais importante do exame final do anno em que estiverem matriculados.

Exames finaes

7.º – Os exames finaes constam das seguintes provas:

1.º ANNO

Cópias do gesso – Uma cabeça em 15 sessões, um pé e uma mão, em 10 sessões cada prova.

2.º ANNO

Cópias do gesso – Um dorso em 15 sessões, um braço e uma perna, em 10 sessões cada prova.

3.º ANNO

Uma cópia de estatua (baixo relevo) de 0.65 m em 15 sessões. Um estudo de figura (baixo relevo), pelo modêlo vivo, de 0,65m, em 15 sessões de 2 horas. Uma cópia esboçada (baixo relevo), de composição, em 5 sessões.

4.º ANNO

Um estudo de figura (pleno relevo), pelo modêlo vivo, de 0,90 m, em 30 sessões de 3 horas. Uma cabeça pelo modêlo vivo, em 15 sessões de 2 horas. Um esboceto (baixo ou pleno relevo) de composição, em 12 horas, sobre assumpto mythologico ou bíblico escolhido pela conferencia sendo entregue ao secretario um croquis da composição de cada alumno antes da execução em barro.

5.º ANNO

Um baixo relevo de 1,30 m por 0,90 m ou uma estatua de 1 m (em pé ou supposta em pé) e cujo assumpto historico ou allegorico, será escolhido em conferencia, sendo entregue ao secretario, um croquis do esboceto de cada alumno, oito dias depois d’este ter conhecimento do assumpto. Para a execução do baixo relevo, terá o alumno tres mezes, e dous para a estatua, sendo n’este caso obrigado a executar uma cabeça de expressão determinada, cópia do modêlo vivo, em 15 sessões.

 

Distincções

8.º – Além das distinções concedidas aos alumnos que obtenham mais de 16 valores nos exames finaes, é distincção particular a escolha dos trabalhos que durante o anno mereçam ser moldados em gesso por conta da Escola, ficando pertencendo aos seus authores depois das exposições escolares.

9.º – A maior distincção d’este genero consiste na escolha de alguns d’estes trabalhos para ficarem pertencendo à Escola.

10.º – No fim de cada anno lectivo serão proclamados os nomes dos alumnos que tenham conseguido o maior numero de valores, sendo para esse fim sommados todos os valores obtidos nos exames de frequencia e finaes.

Sala das sessões da Escola Portuense de Bellas Artes, abril de 1886.

(Fonte: Antunes, Joaquim Manuel M. (1989), Soares dos Reis e a Reforma do Ensino, B.A.C.A.G., Maio, pp. 69-70. )

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