Entre o professorado, 1882, e o fim, 1889:

1882

Comércio e Indústria – Medalhões, executados em estuque, para a cúpula da escada nobre do edifício da Bolsa do Porto.

O AbandonadoModelou esta figura propositadamente para o Bazar promovido pelo Centro Artístico Portuense, em favor da viúva e filhos do arquitecto Soller.

O Abandonado

O Abandonado

1883

Francisco de Almada e Mendonça – Busto colossal do monumento erguido, por subscrição particular, no cemitério do Repouso, ao célebre corregedor.

Viscondessa de Moser  –  Segundo Manuel M. Rodrigues, na obra do Dr. Alves Mendes, este era considerado como um dos bustos mais notáveis de Soares dos Reis devido à grande semelhança com a retratada mas também pela sua qualidade de execução.

Busto da Viscondessa de Moser

Busto da Viscondessa de Moser

1884

Hintze Ribeiro – O busto que existia em mármore de Carrara pertencia à associação Comercial do Porto.

 Busto de Hintze Ribeiro (gesso)

Busto de Hintze Ribeiro (gesso)

José Correia de Barros – Busto do então presidente da Câmara do Porto.

 

1885

Diogo José de Macedo – Medalhão em gesso retratando o avô de sua esposa.

Amélia de Macedo – Medalhão em gesso retratando a avó de sua esposa.

Joaquim de Pinho– Retrato em medalhão. 

Dr. Fernandes Dourado – Grato ao médico seu amigo Dr. Francisco Fernandes Dourado pelos serviços clínicos que este lhe prestou, modelou-lhe o retrato em medalhão. Este trabalho foi também reproduzido em mármore de Carrara

Busto do Dr. Francisco Dourado

Busto do Dr. Francisco Dourado

Emília das Neves Trata-se do busto da actriz Emília das Neves que Soares dos Reis conhecera no palco do Teatro Basquet e a quem muito admirava. Apesar de iniciado em 1885, o escultor só o concluiu em 1888 e foi a última obra que apresentou em público, a qual foi inaugurada no átrio do Teatro D. Maria, em Lisboa. Modelado a partir de várias fotografias, todas diferentes umas das outras, o que dificultou o trabalho ao escultor, não terá deixado o seu autor totalmente satisfeito com o resultado final, como indica na sua carta à revista Occidente, datada de 25 de Dezembro de 1888.

Busto da actriz Emília das Neves

Busto da actriz Emília das Neves

1886

Félix Avelar Brotero  – Esta estátua, em mármore, destinada ao Jardim Botânico de Coimbra, representa o botânico sentado, cabeça levemente inclinada e vestes catedráticas, de borla na mão esquerda. Desse trabalho existia uma maquette, em terracota, que o escultor gentilmente ofereceu a Diogo José de Macedo Júnior, que o acompanhou a Coimbra, em 1887, por ocasião da inauguração do monumento no jardim botânico.

Estátua de Brotero (gesso patinado)

Estátua de Brotero (gesso patinado)

Augusto Cândido RamosRetrato em Medalhão.  

Medalhão de Augusto Cândido Ramos (bronze)

Medalhão de Augusto Cândido Ramos (bronze)

1887

D. Afonso Henriques Esta estátua colossal, representando o primeiro monarca português, destinada ao monumento que se ergueu em Guimarães viu ser escolhido para seu autor António Soares dos Reis. Actualmente é uma das mais representativas imagens identitárias dessa cidade.

A 2 de Setembro de 1885 foi lavrado o contrato segundo o qual o monumento a Afonso Henriques deveria ficar concluído no prazo de 2 anos. Nele colaboraram, sob a vigilância do Mestre, dois dos seus discípulos, Marques Guimarães e Serafim Neves, embora tenham realizado apenas algum do trabalho material. A criação do pedestal entregou-a Soares dos Reis ao hábil arquitecto, e seu amigo, José António Gaspar. O escultor queria um pedestal que não fosse demasiado elevado para que a figura do rei e os seus acessórios cheios de pormenores pudessem ser vistos e apreciados de perto, em todas as suas minudências.

As primeiras reacções a esta estátua de Afonso Henriques foram para apontar o defeito que viam ser o braço nu que, pelos modos, o rei não deveria ter usado! Na verdade, a primeira ideia de Soares dos Reis, ao modelar a estátua de Afonso Henriques, era apresenta-lo já numa idade avançada, gozando o merecido repouso que quer a longa idade quer o seu historial de vida lhe tinham legitimamente concedido. Mas entretanto acabou por substituir essa ideia inicial pela imagem do rei vencedor de Ourique,”robusto e esperançoso, pronto para a luta”. Para uma materialização exemplar desta nova ideia procurou soluções na obra La Chevalerie de Léon Gautier, livro profusamente ilustrado e documentado, que o seu amigo Diogo J. de Macedo Júnior encontrou numa antiga livraria, a Magalhães & Moniz, e cuja leitura lhe sugeriu. E foi após a análise a esta obra que o artista resolveu alterar a armadura que tinha começado a fazer, substituindo a cota de armas curta pelo lorigão de placas redondas até ao artelho. Mas a questão do braço também o preocupava já que com ele pretendia encarnar a força hercúlea e a virilidade máscula do famoso vencedor de Ourique, que com a sua gloriosa espada abriu fundo o cabouco em que seguramente firmou e cimentou os alicerces da nação portuguesa o que seria mais difícil de conseguir sem ser através de um braço nu. A solução a esse dilema encontrou-a na já referida obra de Léon Gautier, numa vinheta impressa com o elemento gráfico d’après la tapisserie de Bayeux (fin du XV.e siècle)! Era a resposta às suas necessidades, estava ali bem interpretado, em todos os seus detalhes, o rei invencível e grande conquistador.

O modelo em gesso ficou concluído em 1887, seguindo-se à sua fundição em bronze, a qual foi feita na fábrica “Aliança”, de Massarelos.

Actualmente a estátua já não se encontra na praça para a qual foi encomendada, tendo sido transferida para a entrada do recinto que dá acesso à Casa dos Duques e ao Castelo. Já não se encontra no pedestal original de autoria de Serafim Neves.

D. Afonso Henriques (bronze)

D. Afonso Henriques (bronze)

Dr. Artur Ferreira Macedo – Retrato em medalhão executado quando o escultor se hospedou na casa deste, em Lisboa.

 

1888

Mrs. Elisa Leech – Este busto em mármore, também conhecido como O Busto da Inglesa, é uma das obras mais emblemáticas do escultor quer pela história que o envolve quer por ter sido uma das últimas obras do Mestre, mas também pela sua elevada qualidade. A retratada, Mrs. Elisa Leech era mãe do ministro Inglês na corte de Berlim, foi ao Porto, em 1888, visitar uma amiga que era preceptora dos filhos de António Nicolau de Almeida, um negociante de vinhos muito bem cotado no meio comercial e cultural da época. Por se sentir desconfortável em hotéis, Mrs. Leech acabou por ficar hospedada em casa do Sr. Nicolau de Almeida, onde durante um jantar travou conhecimento com António Soares dos Reis que, como amigo que era do proprietário, amiúde frequentava a casa. Foi então proposto a Soares dos Reis que retratasse Mrs. Leech.

O escultor aceitou a proposta e rapidamente deu andamento à modelação que teve o seu início em Lisboa. Mas o busto não agradou a retratada que não se viu representada nele, não por diferença fisionómica mas por diferença de postura. Soares dos Reis não se limitou a retratar aquela inglesa em particular mas tentou, através dela, retratar o que deveria acreditar ser o carácter e postura ingleses. A retratada, foi aparecendo com cada vez menos frequência até deixar completamente de aparecer, sem nunca reclamar o trabalho que já tinha inclusivamente pago. Ao ver a perda de interesse por parte da retratada sentiu o escultor tal desânimo que acabou por nunca concluir a obra que retocou, pela última vez em 1889.

Busto de Elisa Leech  ou Busto da Inglesa (mármore)

Busto de Elisa Leech ou Busto da Inglesa (mármore)

Leandro Braga – Modelou o retrato em medalhão.          

Simões de Almeida – Modelou o retrato em medalhão.    

 

1889

Fontes Pereira de Melo – Este busto foi modelado em barro, e executou em mármore, por fotografias e era destinado à Associação Comercial do Porto. Foi a última encomenda de Soares dos Reis e não ficou inteiramente acabada.

Numa das ocasiões em que o jovem Ricardo de Macedo foi visitar o mestre à sua oficina na Rua Luís de Camões assistiu a um episódio muito sui generis que envolveu este busto: 

Sobre um madeiro tinha secado a lama em que delineara o busto de um qualquer magnate político. Talvez o Senhor Fontes… Mirou-o por todos os lados, ora afastando-se ou aproximando-se. Eis, senão quando, ouvi-o dizer: «Espera que já te ensino…» E com um dos maços de madeira de que se servia nalguns dos seus trabalhos, vai ao busto e… zás, trás, fê-lo, num momento em fanicos. «Porque matou o homem?» inquiri, atemorizado. «Não o matei, não senhor. Cumpri, somente, os preceitos do evangelho: Homem, és pó e ao pó hás-de tornar.

Busto de Fontes Pereira de Melo (gesso)

Busto de Fontes Pereira de Melo (gesso)


Anúncios

Histórias das vida privada – casamento e filhos

Mas a vida não era apenas trabalho e o escultor apaixonou-se por uma jovem de nome Amélia de Macedo, precisamente a neta do velho Diogo de Macedo.

Soares dos Reis e a esposa

Soares dos Reis e a esposa

Sobre este assunto é o próprio que numa carta, de 10 de Maio de 1885, dirigida a Simões de Almeida (Tio) demonstra alguma preocupação: “Vá lá, não quero terminar esta sem lhe dar uma novidade que afinal já deve saber: vou casar-me! Chegou-me a vez. Mas infelizmente veio um pouco tarde e n’uma occasião muito perigosa: veremos.”
Apesar de qualquer receio que possa ter sentido relativamente ao casamento, este acabou por se realizar a 15 de Julho de 1885. Deste enlace nasceram dois filhos, Raquel de Macedo Soares dos Reis e Fernando de Macedo Soares dos Reis, que viriam a falecer sem deixar descendência.

Filhos de António Soares dos Reis e Amélia de Macedo

Filhos de António Soares dos Reis e Amélia de Macedo

Entre o casamento e a morte do escultor passaram apenas quatro anos, período em que Soares dos Reis já se encontrava profundamente deprimido, o que poderá ter afectado o relacionamento com D. Amélia, que segundo alguns nem sempre foi o melhor. Talvez por diferença de carácter, de educação e de idade , ou quem sabe pela dificuldade que, para alguém jovem como D. Amélia, fosse conviver com uma pessoa que desde há muito vivia deprimido. Por outro lado também é frequente encontrar referência ao carinho e dedicação que D. Amélia tinha pelo marido.
Sobre este assunto pouco mais se pode fazer do que especular já que as informações que chegaram até nós são, conforme acima é demonstrado, contraditórias. O relato mais fidedigno sobre este assunto é o do próprio Soares dos Reis quando, em carta a José António Gaspar, escreve: “Desculpe-me de nada lhe dizer do meu casamento a não ser que me julgo muito feliz.”.

Raquel ainda não tinha três anos e Fernando contava com 18 meses quando o pai se suicidou. Fernando de Macedo Soares dos Reis morreu muito jovem com apenas vinte e sete anos de idade, vítima de pleurisia . Foi educado no “Colégio dos Órfãos” tendo estudado também na Academia Portuense de Belas Artes, fazendo, com distinção, os dois primeiros anos de desenho. Apesar da passagem pelas Belas Artes acabou por seguir o curso geral dos Liceus e frequentou algumas disciplinas do Instituto Comercial e Industrial do Porto. Abandonando os estudos entrou como empregado para a Foto-Bazar, onde trabalhou até ter conseguido um lugar no Banco Comercial do Porto, na secção de contabilidade, onde se manteve até ao fim da vida. Entusiástico cultor do Esperanto, que conhecia a fundo, chegou a dar aulas particulares. Dizia, quem conheceu Soares dos Reis, que Fernando era o retrato físico e moral do pai . A Actinia, revista do Foto Bazar, no nº 2 de Maio de 1915 publicou o seu retrato acompanhado de algumas palavras. Existia também um retrato seu, já no leito da morte, da autoria de João Augusto Ribeiro. Após a sua morte encontraram nos seus pertences uma carta que um amigo lhe dirigira onde o incitava a seguir a carreira do pai: “Tem talento, deve continuar”, junto à carta estava um rascunho da resposta que simplesmente dizia: “Soares dos Reis – haverá só um!”

Raquel viveu mais do que o seu irmão Fernando e, talvez por isso, não houve quem contasse histórias a seu respeito. Assim, sobre a filha de António Soares dos Reis e de Amélia de Macedo muito pouco se sabe. Existe a certidão de Baptismo, onde consta nome, data e local de nascimento. Após a morte do pai foi com a mãe e o irmão morar com os avós maternos durante cerca de 4 a 5 anos, até regressarem à casa-oficina . Acompanhou sempre a mãe a quem se dedicou toda a vida, sem nunca ter casado.

Enquanto foi viva teve sempre a esperança de ver recuperada a casa-oficina que o seu pai concebeu e onde a família viveu tantos anos. Quando a Câmara adquiriu a casa à empresa O Primeiro de Janeiro, essa esperança renasceu. A Câmara de Gaia tinha o alçado, mas não tinha a planta, no entanto Raquel dizia ser capaz de reconstituir a casa, até de olhos fechados, já que lá vivera até 1910. Raquel acreditou então que a casa seria recuperada, só tinha pena que sua mãe já o não visse, pois falecera em Agosto de 1945. Acreditava que graças aos bons propósitos d’O Primeiro de Janeiro, a firme decisão do sr. Dr. Fernando Moreira e a vontade forte do pintor Joaquim Lopes a recuperação da casa era possível . Viu surgir muitas esperanças nesse sentido sem que, no entanto, alguma se viesse a concretizar. Sempre que pôde envolveu-se directamente nas homenagens que eram prestadas a seu pai, por quem nutria grande admiração.
Guardava com grande carinho um volume do tomo V d’ As Farpas, que fora de seu pai, no qual Ramalho Ortigão falava de Soares dos Reis e onde este foi apontando, nas margens, comentários sobre com o que concordava ou não no texto .

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl1

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl1

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl2

Certidão de casamento de Soares dos Reis com Amélia de Macedo_fl2

Certidão de baptismo de Raquel

Certidão de baptismo de Raquel

Certidão de baptismo de Fernando

Certidão de baptismo de Fernando