Imagens da casa-oficina em 2013

Estado da casa-oficina de António Soares dos Reis no Inverno de 2013

As imagens que se seguem são da autoria de Carlota Cunha e de José Eduardo Gama da Direcção Regional de Cultura do Norte – Direcção de Serviços de Bens Culturais,  no sentido de integrarem o pedido de classificação da casa- oficina do  escultor António Soares dos Reis a Monumento de Interesse Nacional. 
 
Diz a famosa citação de Antoine Lavoisier que “ Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Parece que com o nosso Património é sobretudo ” pouco se cria, quase tudo se perde, pouco ou nada se transforma”
 
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A Carlota Cunha e José Eduardo Gama os nossos agradecimentos.

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“A Casa-Oficina de Soares dos Reis vai ser adquirida e restaurada”

“A Casa-Oficina de Soares dos Reis vai ser adquirida e restaurada”  foi o título de um artigo que saiu no Jornal de Notícias em 25-02-1945.

Artigo do Jornal de Notícias sobre a casa-oficina de Soares dos reis, 1945

16 de Fevereiro de 1889 – Faleceu António Soares dos Reis

O Caminho da tragédia  

Máscara fúnebre de António Soares dos Reis, modelada em gesso, do natural, por Teixeira Lopes (pai).

Máscara fúnebre de António Soares dos Reis, modelada em gesso, do natural, por Teixeira Lopes (pai).

 

No dia 17 de Fevereiro de 1889 lia-se no Diário de Notícias:

Porto, 16 – Suicidou-se hoje às 08h00 da manhã, na sua casa da Rua de Luís de Camões, em Vila Nova de Gaia, disparando dois tiros de revólver na cabeça, o eminente estatuário Soares dos Reis, lente de escultura na Academia de Belas Artes e autor de verdadeiras obras-primas. (…) São desconhecidas as causas que determinaram o suicídio.

   Colocou termo à vida a 16 de Fevereiro de 1889 mas o caminho que levou à tragédia começou anos antes.

   Em 1887, quando terminou a Estátua de Afonso Henriques, para Guimarães, a sua saúde voltou a piorar e em carta à Academia Portuense de Belas Artes, informa que esteve recentemente instalado numa casa de saúde, tendo depois seguido para Lisboa com o intuito de mudar de ares. É nessa altura que conhece Elisa Leech, a qual pede ao artista para que a retratasse. Desse trabalho resultou o famoso Busto da Inglesa, que ficaria inacabado por esta deixar de aparecer a servir de modelo. Para o artista esta rejeição foi mais um duro golpe.

    Em 1888 abandona Lisboa para regressar a Vila Nova de Gaia e dirige uma carta à Academia Portuense de Belas Artes onde demonstra a sua intenção de abandonar a regência da cadeira de escultura.

    Em 1889 a sua depressão agrava-se sob a forma de grandes perturbações mentais e irritabilidade, procurando constantemente o isolamento. A 15 de Fevereiro no que parecia ser uma aparente melhora, a reúne-se com os amigos e, com grande entusiasmo, apresenta o seu projecto para o Monumento ao Infante D. Henrique.

   D. Amélia, sua esposa, desconfiando que algo de errado se passava , na véspera da tragédia,  escondeu-lhe a pistola. Na manhã de dia 16, Soares dos Reis levantou-se e foi dar alguns retoques na obra em que trabalhava na altura, o Busto de Fontes Pereira de Melo. Pouco depois ouviu-se um estrondo na sala do rés-do-chão, semelhante a uma detonação fazendo D. Amélia acorrer ao local, para ver o que se passava, onde encontrou o marido, em pé, limpando a pistola e desculpando-se que se havia descuidado e ela disparara acidentalmente. Mas, pouco depois, Soares dos Reis dirigiu-se para o seu escritório e de lá soou o mesmo estrondo que se ouvira anteriormente, só que desta vez quando a esposa chegou já o encontrou sem vida.

   Antes de premir o gatilho deixou gravado na parede do quarto:

Sou cristão, porém nestas condições a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo, a quem me fez mal.

   Foi sepultado no cemitério de Mafamude, em Vila Nova de Gaia, onde, contra o que é natural num suicida, teve um enterro cristão. O Busto sobre a sua campa é da sua autoria.

 

Campa de António Soares dos Reis, Cemitério de Mafamude

Campa de António Soares dos Reis, Cemitério de Mafamude

Dificuldades, derrotas e vitórias

Em 1882, Soares dos Reis, apresentou ao Conselho Escolar da Escola de Belas Artes do Porto uma proposta de reforma (ver “Reforma do Ensino: Propostas”). Esta veio a ser rejeitada uma vez que muitas das suas disposições contrariavam a lei orgânica que não se quis ver alterada em 1881.

Mas esta proposta viria a ser publicada na revista A Arte Portuguesa, como assunto de interesse, em Setembro de 1882,  artigo esse assinado por Manoel M. Rodrigues (1847-1899).

Assunto de Interesse (1ª parte)Assunto de Interesse (2ª parte)

Para Soares dos Reis este era mais um golpe que a vida lhe pregava. Exaltou-se, adoeceu e quis abandonar a Academia. Nesse ano esteve em repouso. Pintava, jardinava, lia obras sobre botânica, tocava violão, cantarolava. Por fim, acompanhado do pintor J. Vitorino Ribeiro (1849-1923), faz uma viagem pela Espanha e, novamente, por França.

Em Outubro de 1885, agora enquanto delegado da EBAP, apresentou perante o Conselho Superior de Instrução Pública várias propostas que, finalmente, viu serem admitidas e aprovadas por unanimidade.Todavia, foi logo avisado de que perderia o seu tempo e palavras, porque o Governo não estava disposto a desenvolver aquele ensino de belas-artes, nem a autorizar «despesas avultadas» como as requeridas.

Apesar das muitas desilusões não desistia da sua intenção de reformar o ensino e, como uma das medidas, para melhorar a sua Escola fez obras nas salas de aulas para os seus alunos e algumas melhorias conseguiu tiradas a ferro de um erário famélico.

Em 1886 apresentou ao corpo docente da EPBA o Programa e Regulamento do Curso de Escultura (ver “Reforma do Ensino:Propostas”), que então dirigia. Este foi recusado, e ele impedido de sequer apresentar as suas teses. Face à atitude dos seus colegas decidiu publicar um opúsculo, editado pelo Comércio do Porto, com o Projecto de Reforma e Regulamento do Curso de Escultura, que dedicou aos seus amigos José Simões de Almeida  (1844-1926) e José António Gaspar, também professores da Escola de Belas Artes de Lisboa

Do Corpo

Ao longo da sua vida Soares dos Reis foi frequentemente acometido por uma maleita desconhecida que o atirava para a cama por longos períodos de tempo, impedindo-o de trabalhar e obrigando-o a ficar dependente de cuidados de terceiros, normalmente da sua mãe. Numa carta, de 10 de Dezembro de 1884, que envia a José António Gaspar em que se pode ler-se o seguinte:

Am.o Gaspar/ Hum incidente bem desagradavel vem interromper (e quem sabe se para sempre) as nossas combinações com relação ao monumento de D. Affonso Henriques para Guimarães. Diz-me o doutor que devo responder laconicamente: pois é o que faço participando-lhe que o incidente de que acima falo é nada menos do que uma doença grave, aquella para que sempre tive predisposições, que agora me atacou deveras. Lembranças a todos e até outra vez se esta não for a ultima.

Sobre este mal nada se sabe, já que o próprio escultor é também desconhecedor da sua origem. É um assunto que pouco se vê referido mas que poderá ter igualmente contribuído para a depressão em que o escultor mergulhou nos últimos anos da sua vida. O próprio, numa outra carta a José António Gaspar informa-o que:

A este respeito que é hoje o que mais me interessa nada posso dizer-lhe porque me parece que estou sempre na mesma. Todos me aporrinham com conselhos, não ouso (sic) senão: tenha cuidado, tenha cautela, de forma que já não sei o que devo fazer nem o que devo pensar de mim mesmo. O que é mais curioso é que a final ainda não sei qual é a molestia ou se são mais do que uma ou até se não é nenhuma. Isto chama-se vegetar e não viver, e posso assegurar-lhe que n’estas condições a vida é pouco interessante: no entanto não vá julgar que tenho alguma idea de dar cabo d’ella, isso não.

Numa carta que Torcato Pinheiro dirige José António Gaspar ficamos a saber que a doença a que Soares dos Reis se refere na carta anterior o atirou para a cama por um período aproximado de um mês,

Tenho a dar-lhe boas novas. O nosso Soares levantou-se pela primeira vez neste momento, 10 de Janeiro de 85, às 2 horas da tarde.

Quando, em 1887, terminou finalmente a Estátua de Afonso Henriques, para Guimarães, a sua saúde voltou a piorar e em carta dirigida à Academia Portuense de Belas Artes, com data de 1 de Agosto, informa que esteve recentemente instalado numa casa de saúde.

Ex.mo Sr.

Tendo sido obrigado repentinamente a procurar uma casa de saude para tratar da minha saude sériamente comprometida, como sabe, e estando à minha disposição uma licença de que posso gozar quando precisar, participo a V. Ex.ª que desde ontem me acho em casa do Dr. Ferreira, Rua Duqueza de Bragança e se assim me for preciso gozarei todo o mês de Agosto da supradita licença.

                                                      Porto, 1 de Agosto de 1887

                                                                                                                                                                                                                                                 De V. Ex.ª

                                                                                                                                                                                                                                                Am.º e Ob.do

                                                                                                                                                                                                                                          A. Soares dos Reis.

Para mudar de ares, partiu para Lisboa, onde ficou instalado na Rua Jardim do Regedor n.º 43, sobre o que dá notícia a seu amigo Serafim Neves, em carta datada de 15 de Abril de 1888.

Repórter Artístico do Occidente

Caetano Alberto, juntamente com Manuel de Macedo, foi um dos fundadores da Revista Occidente. Este e Soares dos Reis conheceram-se em 1876, dois anos antes da criação do Occidente, numa exposição de Belas Artes que teve lugar em Lisboa e onde Soares dos Reis expôs O Artista na Infância .
Soares dos Reis estreou-se como repórter artístico do Occidente, no número 15 de Janeiro de 1879 com o desenho do vapor inglês Olga que havia sido abalroado pelo vapor da marinha mercante francesa Constantin. O Olga que sofreu danos irreparáveis veio a encalhar na praia de Matosinhos e Soares dos Reis dirigiu-se ao local do sinistro onde registou, em desenho, o acontecimento.

Naufágio do Vapor Olga

Naufágio do Vapor Olga

Contribuiu ainda com Incêndio depois do desabamento da Ponte de Guindães que saiu no N.º 28 de 15 de Fevereiro de 1879;

Incêndio depois do desbamento...

Incêndio depois do desbamento da ponte de Guindães

Inauguração do Monumento a D. Pedro V, em Braga, no N.º 40 de 15 de Agosto de 1879; o Croquis do Busto, em mármore, de Pinto Beça, escultura de autoria de Soares dos Reis, que saiu no N.º 72 de 15 de Dezembro de 1880;

Inaururação ao monumento de D. Pedro V, na cidade de Braga

Inaururação ao monumento de D. Pedro V, na cidade de Braga

Busto de Pinto Bessa

Busto de Pinto Bessa

Colaborou no desenho Porto – Aspecto da Ribeira por ocasião da última cheia que vem assinado por José Brito, por este ser ainda algo inexperiente, que saiu no N.º 78 de 21 de Fevereiro de 1881;

Porto – Aspecto da Ribeira

Porto – Aspecto da Ribeira

Festas no Porto por ocasião da visita da Família Real – Aspecto do Fogo de Vistas no Palácio de Crystal, no N.º 108 de 21 de Dezembro de 1881, sobre este desenho, pede o artista para que não seja dito que é um desenho só dele já que teve a colaboração, por pouca que fosse, de José de Brito.

Aspecto do Fogo de Vistas no Palácio de Crystal

Aspecto do Fogo de Vistas no Palácio de Crystal

Apesar da sua participação enquanto repórter artístico não parecer muito activa, já que são poucos os desenhos que encontramos de Soares dos Reis, o escultor teve com esta revista um envolvimento muito ligado aos “recursos humanos”. Na vasta correspondência que foi trocando com Caetano Alberto – a qual pode ser consultada em Soares dos Reis repórter do Occidente através de vinte e uma cartas, explicadas por Angelo Pereira – é frequente encontrar-se referências a artistas que Soares dos Reis sugere para participarem em edições da revista, quer como repórteres artísticos (Sousa Pinto, Henrique Pousão ou Marques de Oliveira) quer como escritores (como é o caso de Manuel M. Rodrigues) demonstrando mais uma vez o seu lado altruísta, sempre disposto a ajudar os amigos e outros artistas.

O Professor

Em 1881 faleceu o professor da Academia Portuense de Belas Artes, Manuel da Fonseca Pinto, deixando vaga a cadeira de escultura na APBA. Os amigos de Soares dos Reis pediram-lhe que concorresse, mas ele, a princípio, não quis.

Academia de S. Lázaro (Academia Portuense de Belas Artes)

Academia de S. Lázaro (Academia Portuense de Belas Artes)

Hesitou muito antes de aceitar o lugar,

não que lhe repugnasse o ensino ou lhe faltasse o desejo de frutificar em outros, os recursos da sua aptidão própria, mas porque sentia que a sua entrada na Academia, só se podia dar, quando reformas profundas a colocassem em circunstâncias compatíveis com as ideias que bebera no seu longo tirocínio artístico, no estrangeiro,

só o fazendo após lhe terem asseverado que unicamente como

professor daquele estabelecimento é que podia remover os embaraços com que contava, visto o estado em que se encontrava o ensino na Academia, e sobretudo na aula de Escultura.

Só à última da hora, na mesa dum antigo Café de S. Lázaro, é que escreveu o requerimento. As provas do concurso foram:

Narciso, de perfeita execução, uma academia impecável,

Narciso, gesso, 1881 -

e

Morte de Adónis, em baixo-relevo, que é uma obra-prima.

Morte de Adónis , gesso, 1881 -

 Entrou no professorado. Em 20 de Janeiro de 1882 foi aceite, por unanimidade, Professor de Escultura da Academia Portuense de Belas Artes.