Desenho e Pintura

Em muitos dos desenhos que Soares dos Reis nos legou evidencia-se uma tendência de, com o esfuminho a lápis, alcançar o necessário relevo, o que é revelador de uma característica mais de pintor do que de escultor, apontando para a hipótese de que se este tivesse enveredado pela pintura seria de igual modo um excelente artista. Mesmo nos pequenos apontamentos que deixou é fácil notar que era um notável desenhador.

Fez o retrato de ambos os pais, sendo o do pai de tal perfeição que, numa visão menos atenta, passa por fotografia.

Colaborou com desenhos para ilustrações de várias obras, como a revista O Occidente;

Fez o desenho para a capa do D. Jaime, de Tomás Ribeiro, para uma edição popular feita pela antiga casa Moré;

Para Os Lusíadas, edição da Imprensa Nacional, contribuiu também com vários desenhos:

_Camões (estampa do título),

_Concílio dos Deuses (1º canto),

_As Nereides (2.º canto),

_Assassínio de D. Inês de Castro (3.º canto),

_O Velho da praia do Restelo (4.º canto)

_A estampa Assalto a Veloso (5.º canto).

A edição desta obra data de 1878 mas só foi concluída e posta à venda em 1880, ano da comemoração do tricentenário de Camões. Foram vários estudos que o artista fez antes de chegar aos desenhos definitivos, os quais ainda existem, pelo menos alguns deles, no M.N.S.R.

Uma das recordações que Ricardo de Macedo aponta no texto que escreveu para o álbum em Soares dos Reis: in memoriam, remete à época em que, ainda criança, num dos pic-nics em que Soares dos Reis acompanhou os Macedo, se afastou do grupo, após ter comido qualquer coisa, e sentou-se numa rocha que se encontrava perto. Ricardo, inquieto pela ausência do artista, foi ter com ele. Soares dos Reis pintava, e ao reparar nele, repreendeu-o: Anda, vai para o teu lugar; quero que fiques aqui – indicando o pequeno cartão em que trabalhava os pincéis. Decorridos dias mostrou a Ricardo o que havia estado a fazer, era ele, Ricardo, de bibe, levando à boca, com a mão, uma asa de frango… Esse quadro acabou por se perder e nem o retratado sabia do seu paradeiro.

Em 1885 fez um retrato a lápis de D.ª Amélia Aguiar de Macedo, sua noiva, e nesse mesmo ano retratou praticamente toda a família. Desenhou D.ª Amélia de Macedo, avó da sua esposa; os cunhados D. Laura de Macedo e Fernando Aguiar de Macedo; o seu grande amigo e tio por afinidade, Diogo José de Macedo Júnior; o sogro, Camilo José de Macedo, de quem fez um retrato na Praia dos Lavadores; e ainda os seus parentes ou «familiares» por afinidade, D. Maria Teresa Ripamonte Campano Damásio, D.ª Elvira Beatriz de Macedo Damásio e D.ª Madalena Damásio, esta ainda criança.

Sabe-se que também retratou, a lápis, Alfredo José da Silva Cunha, o conhecido janota que ditou a elegância da baixa portuense.

Durante o período em que foram pensionistas em Paris,  pintou o retrato de Sardinha, o qual está assinado e datado: – Paris, 1870. Entre esse ano e o anterior, pintou também um quadro intitulado O curativo de S. Sebastião. O retrato foi pintado do natural e é uma obra vigorosa, que põe em destaque o busto num fundo em que dominam os tons de crepúsculo. O Santo está pálido, quase desfalecido, com o tronco meio levantado e amparado por uma mulher, tendo a cabeça em esforço e reclinada sobre o ombro direito, enquanto a outra mulher ajoelhada, procede ao curativo dos ferimentos. Para a obra, que teria 1.20m sobre 1.50m, serviram ao artista de modelo, para as figuras femininas, as irmãs de um pintor, de nome Silva. A sua composição é marcada por um colorido da tonalidade sombria e triste, em que dominam o negro e os gris que, segundo Alfredo Cândido em Soares dos Reis o Pintor, recorda o estilo, a suavidade encantadora das obras de Courbet. Em 1933, havia notícia de estas duas obras se encontrarem em Algés, em poder de um Sr. Adolfo Mengo Sardinha, filho do arquitecto J. Geraldo Sardinha.

Havia alguns trabalhos em poder da viúva de Soares dos Reis e um tecto pintado em casa dum amigo do célebre artista.

Nos anos 30, do séc. XX havia, na propriedade dos herdeiros de Henrique de Sousa Braga, uma pintura a óleo representando uma vista do mar, pintada na praia de Lavadores, que era da autoria de Soares dos Reis.

Também o clube de Vila Nova de Gaia possuía uma aguarela, pintada pelo Mestre, Rua do Agueiro, que arremataram no leilão da Sociedade Talma, em 4 de Abril de 1886, por 2$500 reis.

São também de sua autoria:

_Nympha do Crocodilo (esboceto a óleo);

_O retrato do arquitecto lisboeta José António Gaspar (óleo sobre tela, com a dedicatória “Ao Am.º Gaspar off. Soares dos Reis 1876);

_A Morte de César (esboceto a óleo),

_Uma paisagem do Aqueduto da Serra do Pilar (óleo sobre tela, com uma dedicatória “Ao seu amigo Gaspar A.S. Reis”);

_Marinha (óleo sobre tela);

_Cabeça de mulher (aguarela);

_José explicando os sonhos (óleo sobre folha, datado de 1880);

_Nimpha (óleo sobre tela, assinado “A. S. Reis 1881”);

_Camélia Branca (óleo sobre cartão, com a dedicatória “ Off ao seu Amigo José David”);

_Copo com Flores (óleo sobre cartão, datado de 1886)

Naufrágio do Vapor Olga, Revista Occidente

Retrato de D. Amélia Aguiar de Macedo Soares dos Reis, esposa do artista

Pagem, estudo para os Lusíadas

Aqueduto da Serra do Pilar


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Para além do escultor

O Abandonado, 1882

António Soares dos Reis foi um marco na escultura portuguesa. A afirmação parece um cliché, no entanto, olhando ao parco panorama da escultura produzida em Portugal na 2ª metade do século XIX, verificamos que o artista gaiense fez parte dum núcleo muito restrito, do qual sobressaem poucos mais nomes do que o de Vítor Bastos ou Alberto Nunes.

 As obras que nos legou são de uma qualidade e beleza inegáveis, assim como a sua capacidade única de conseguir retratar para além do visível, projectando na obra a personalidade dos vultos que representou. Quem vê O Desterrado quase espera que ele se levante do rochedo e siga o seu caminho. Em relação à obra que representa o Conde de Ferreira acreditamos que se baixe e nos estenda a mão para nos cumprimentar. Já o Abandonado temos vontade de pegar nele e levá-lo.

Soares dos Reis conseguia, como ninguém, dar uma dimensão humana às suas obras, quer pela qualidade da execução quer pela alma que lhes conseguia atribuir, características que fizeram dele um artista ímpar. Só isto bastaria para que merecesse ser recordado e apreciado, mas o seu lado de escultor era um dos muitos que o artista possuía e que faziam dele um personagem extraordinário.

Nas suas actividades de homem comum encontrava alegria nas mais pequenas e variadas coisas. Tinha uma outra paixão além das belas artes,  à qual dedicava muito do deu tempo e afeição, a jardinagem. O seu sonho era ter, junto à casa, um jardim onde pudesse cultivar as suas flores, que tratava com verdadeiro carinho.

No seu jardim, que o próprio delineou, encontravam-se os mais variados tipos de flores que partilhavam o espaço com inúmeras árvores de fruto sem esquecer as suas tão apreciadas alcachofras e os predilectos acantos. 

Na rua Pinto de Aguiar, à entrada da Quinta do Cedro, havia um jardim que foi delineado por Soares dos Reis que, terá projectado também, o jardim da vivenda do pai de um seu amigo, conhecido por Cunha da Raza. O gosto era tal que, amiúde, na companhia do seu amigo Diogo José de Macedo, fazia digressões pelos campos de Vila Nova de Gaia, à procura de fetos e miosótis.

 

Jardim da casa-oficina de António Soares dos Reis

Apesar do pouco que tirava dos seus trabalhos como escultor e do baixo ordenado que recebia enquanto professor na Academia, sempre que conseguia juntar algum dinheiro usava-o para comprar aos seus colegas obras de arte com que, todo satisfeito, decorava as paredes dos seus modestos aposento. Esta sua faceta Humanista era bem conhecida dos seus colegas e amigos, tantas foram as vezes que a puderam apreciar.

Se havia assunto que era caro ao escultor era a dinamização das artes e do seu ensino, assim como um maior reconhecimento para os artistas portugueses e as suas obras. Foi nesse sentido que Soares dos Reis se envolveu em inúmeros projectos, uns mais frutíferos que outros, conseguindo fazer pela arte portuguesa mais do que até então alguém havia feito. Na sua actividade enquanto professor na Academia Portuense de Belas Artes tentou, por várias vezes, aplicar programas de melhoria que aperfeiçoassem o ensino na Academia quer para os docentes quer para os discentes. O que não conseguiu realizar na Academia procurou fazê-lo com a criação de um Centro Artístico (o C.A.P.), juntamente com outros e artistas e estudiosos, e, na sequência deste, uma revista exclusivamente dedicada às Belas Artes (Arte Portugueza). Além da participação nesta revista participou também, enquanto repórter artístico, na revista O Occidente.

Revista “A Arte Portuguesa”, n.º 1