Para além do escultor

O Abandonado, 1882

António Soares dos Reis foi um marco na escultura portuguesa. A afirmação parece um cliché, no entanto, olhando ao parco panorama da escultura produzida em Portugal na 2ª metade do século XIX, verificamos que o artista gaiense fez parte dum núcleo muito restrito, do qual sobressaem poucos mais nomes do que o de Vítor Bastos ou Alberto Nunes.

 As obras que nos legou são de uma qualidade e beleza inegáveis, assim como a sua capacidade única de conseguir retratar para além do visível, projectando na obra a personalidade dos vultos que representou. Quem vê O Desterrado quase espera que ele se levante do rochedo e siga o seu caminho. Em relação à obra que representa o Conde de Ferreira acreditamos que se baixe e nos estenda a mão para nos cumprimentar. Já o Abandonado temos vontade de pegar nele e levá-lo.

Soares dos Reis conseguia, como ninguém, dar uma dimensão humana às suas obras, quer pela qualidade da execução quer pela alma que lhes conseguia atribuir, características que fizeram dele um artista ímpar. Só isto bastaria para que merecesse ser recordado e apreciado, mas o seu lado de escultor era um dos muitos que o artista possuía e que faziam dele um personagem extraordinário.

Nas suas actividades de homem comum encontrava alegria nas mais pequenas e variadas coisas. Tinha uma outra paixão além das belas artes,  à qual dedicava muito do deu tempo e afeição, a jardinagem. O seu sonho era ter, junto à casa, um jardim onde pudesse cultivar as suas flores, que tratava com verdadeiro carinho.

No seu jardim, que o próprio delineou, encontravam-se os mais variados tipos de flores que partilhavam o espaço com inúmeras árvores de fruto sem esquecer as suas tão apreciadas alcachofras e os predilectos acantos. 

Na rua Pinto de Aguiar, à entrada da Quinta do Cedro, havia um jardim que foi delineado por Soares dos Reis que, terá projectado também, o jardim da vivenda do pai de um seu amigo, conhecido por Cunha da Raza. O gosto era tal que, amiúde, na companhia do seu amigo Diogo José de Macedo, fazia digressões pelos campos de Vila Nova de Gaia, à procura de fetos e miosótis.

 

Jardim da casa-oficina de António Soares dos Reis

Apesar do pouco que tirava dos seus trabalhos como escultor e do baixo ordenado que recebia enquanto professor na Academia, sempre que conseguia juntar algum dinheiro usava-o para comprar aos seus colegas obras de arte com que, todo satisfeito, decorava as paredes dos seus modestos aposento. Esta sua faceta Humanista era bem conhecida dos seus colegas e amigos, tantas foram as vezes que a puderam apreciar.

Se havia assunto que era caro ao escultor era a dinamização das artes e do seu ensino, assim como um maior reconhecimento para os artistas portugueses e as suas obras. Foi nesse sentido que Soares dos Reis se envolveu em inúmeros projectos, uns mais frutíferos que outros, conseguindo fazer pela arte portuguesa mais do que até então alguém havia feito. Na sua actividade enquanto professor na Academia Portuense de Belas Artes tentou, por várias vezes, aplicar programas de melhoria que aperfeiçoassem o ensino na Academia quer para os docentes quer para os discentes. O que não conseguiu realizar na Academia procurou fazê-lo com a criação de um Centro Artístico (o C.A.P.), juntamente com outros e artistas e estudiosos, e, na sequência deste, uma revista exclusivamente dedicada às Belas Artes (Arte Portugueza). Além da participação nesta revista participou também, enquanto repórter artístico, na revista O Occidente.

Revista “A Arte Portuguesa”, n.º 1

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Execução do projecto do arquitecto José Geraldo Sardinha

Quando mudou a sua oficina para a Rua Luís de Camões, Soares dos Reis fê-lo para estar mais perto da família, nessa época composta de seus pais e de sua irmã Engrácia.

A casa acabou por ficar à beira da rua, mas pelo primeiro projecto, deveria ter sido construída no meio de um parque ajardinado. Desse primeiro projecto, casa e jardim, existe um croqui que ele próprio desenhou, a pedido do amigo Diogo José de Macedo Júnior, numa pequena folha de papel quadriculado, que muito possivelmente corresponde ao que se encontra hoje no MNSR.

Croqui da casa desenhado por Soares dos Reis (N.º Inv. 32069 TC)

Escolheu um terreno na Rua Luíz de Camões, em Vila Nova de Gaia, do lado que desce para o rio, embora muito longe deste, mais próximo do que é hoje a Avenida da República, e deixou o projecto a cargo do arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906), seu antigo companheiro de pensionato em Paris e amigo de longa data. Os documentos mais antigos a respeito desta casa remontam a 1876 e referem-se ao projecto da casa-oficina que Soares dos Reis apresentou à Câmara em sessão de vereação, a 25 de Agosto de 1876, e o alvará com que a mesma autorizou a construção do edifício. É de notar que o projecto da referida casa-oficina foi encontrado nos anos quarenta do séc. XX, nos Arquivos da Câmara de Gaia, conforme nota do Jornal de Notícias de Junho de 1944:

Aquando a mudança do arquivo foi encontrado o projecto da casa-ofícina do artista, feito por ele próprio. Esse projecto fora presente em sessão da vereação de 25 de Agosto de 1867 [1] (SIC),   merecendo a aprovação da Câmara, pelo que além da assinatura do seu autor, tem a assinatura de todos os vereadores.

A casa-ofícina a que o projecto se refere diz respeito foi edificada na rua Luís de Camões.

A dita casa já deu origem a várias discussões, aventando-se que o Município deveria interessar-se pela sua aquisição.

 Desde então o seu paradeiro voltou a ser desconhecido, tendo sido precisamente através dessa notícia que se tomou conhecimento da data exacta em que o projecto foi sujeito à sessão de vereação.

Sobre a casa propriamente dita, a descrição mais antiga que encontramos é de 1889 do Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista onde segundo as palavras do Dr. Alves Mendes:

A casa no final do séc. XIX

O atelier compunha-se de três corpos interiores. O central, vasto e desafogado, para o trabalho; o da esquerda, dividido em pequenos compartimentos, para habitação; e o da direita, que nunca chegou a concluir-se, destinou-se promiscuamente a armazem, galinheiro e pombal. Nas trazeiras, em um pedasso de terreno, dispôs um pequeno jardim em que as flores os arbustos se entremeavam com os frutos e com grandes pés de alcachofras (legume pelo qual tinha especial predilecção). (…) A jardinagem era uma das suas paixões.A entrada para o atelier abria-se, pelo lado do jardim. Era junto dessa entrada que se viam, meias envoltas pelas heras, as pedras da interessante janela de estilo romanico, que pertencera ao velho edifício que existia na rua da Reboleira e que foi destruido para a abertura da rua Nova Alfandega… Quando a casa foi demolida, comprou por alguns vintens a  janella e levou-a para casa.Interiormente o atelier nada oferecia de extraordinário. Nem luxos de decoração, nem abundancias de objectos de arte. A simples oficina de um trabalhador.O atelier comunicava por uma porta com a casa de habitação. Uma sala de visitas, o quarto de dormir, a cosinha, e a sala de jantar. Tudo ao rés do chão e de pequenas dimensões. Era por esses aposentos que se achavam disseminados os quadros, os desenhos, as aguarelas e os medalhões que Soares dos Reis adquirira em algumas exposições artisticas, ou que lhe haviam sido oferecidos por amigos. Entre essas obras de arte avultavam o seu retrato, pintado por Marques de Oliveira e um outro retrato em medalhão, modelado pelo escultor Simões de Almeida e reproduzido em bronze pela galvanoplastia. Muitos dos quadros que ornavam as paredes comprára-os Soares dos Reis nas exposições de belas artes realizadas “n’esta cidade”. O aumento da família sugeria-lhe a ideia de erguer mais um andar ao atelier.[2]


[1] A data correcta é 1876, terá sido erro do jornalista ou erro de impressão.

[2] Dr. Alves Mendes (1889), Album phototypico e descriptivo das obras de Soares dos Reis precedido d’um perfil do grande artista; pp. 25 e 26.