Do regresso de Roma,1872, até ao professorado, 1882:

1872/1973

Cristo Morto – Esta foi a primeira obra que Soares dos Reis executou em Portugal logo após ter regressado de Roma. A imagem, um Cristo Morto, feito em gesso e madeira, teve origem no pedido do Abade Santana e como destino o altar de S. Vicente, na Igreja de S. Cristóvão de Mafamude, Vila Nova de Gaia. O jovem artista não só acedeu ao pedido do abade, e de alguns dos seus conterrâneos, como fez também o donativo da imagem. Acontece que Soares dos Reis deu à imagem todas as características humanas, inclusive as partes genitais, o que ao ser verificado pelas devotas criou um grande alvoroço. Estas, para corrigir este excesso de realismo do escultor, acabaram por envolver a figura numa numerosa quantidade de toalhas e rendas, deixando a descoberto apenas as extremidades das pernas e parte do busto.

1972 - Cristo Morto

Cristo Morto

Virgem das Dores – Trata-se de uma imagem de roca em madeira para a Igreja de S. Francisco, em Guimarães.

Neptuno, Júpiter, Juno e uma Dançarina – Criadas para a Fábrica de Louça do Sr. João do Rio Maior, as estatuetas Neptuno, Júpiter e Juno e uma Dançarina, são imitação das de Canova. Todas elas foram reproduzidas em barro cosido e vidrado e alguns exemplares figuraram em várias exposições. Depois de vidradas foram mandadas à exposição de Viena de Áustria.

 187*

Saudade, Indústria e Comércio – Produzidas para o canteiro portuense Laurentino da Silva. As três foram reproduzidas em ponto grande, em mármore de Carrara, para um mausoléu do cemitério de Agramonte, e a primeira frequentemente reproduzida com diferentes dimensões.

 1874/1975

Senhora da Vitória – Imagem em madeira, destinada à Igreja da Vitória no Porto. Esta, tal como a grande maioria das imagens religiosas de Soares dos Reis, não foi bem aceite pelo seu ar aparentemente pouco divino. Os seus encomendantes, apesar do descontentamento, nuca ousaram contrariar o mestre fazendo-lhe a devolução do trabalho e a imagem foi permanecendo no templo a que fora destinada. Quase meio século após a sua chegada, alguém que também lhe notava um lado mais humano do que divino, decidiu levá-la a um santeiro para que lhe trocasse a cabeça por uma outra “mais adequada”. Quando este acontecimento se tornou público não faltaram vozes dissonantes a elevar-se face ao acontecido.

Nossa Senhora da Vitória

Nossa Senhora da Vitória

Anjo decorativo – Imagem em madeira também destinada à Igreja da Vitória no Porto.

Visconde de Tamandarê e Marquês do Herval – Os bustos do Visconde de Tamandarê e do Marquês do Herval foram executados em mármore de Carrara, e ambos modelados a partir de fotografias. Tinham como destino o Rio de Janeiro mas antes de serem enviados estiveram em exposição em Lisboa, em 1875.

Artista na Infância – Escultura em mármore, era propriedade da Duquesa de Palmela. Foi a primeira obra a pôr em maior evidência a mestria do seu autor.

Cabeça de Negro – Busto, em mármore, é a cabeça de um rapaz preto, a quem serviu de modelo um jovem conhecido de Soares dos Reis, que era oriundo das Terras de Santa Cruz e se chamava Domingos. A peça, em mármore, foi realizada para o Sr. Francisco de Oliveira Chamiço, de Lisboa. A obra foi exibida em várias exposições portuguesas e o modelo pertencia à Academia de Belas Artes de Lisboa.

Cabeça de Negro (gesso)

Cabeça de Negro (gesso)

Carpideira e Anjo (com emblema da Paixão) – Ambos os modelos foram realizados para o canteiro portuense José Amatucci. Quando Soares dos Reis terminou Anjo, o canteiro José Amatucci levou ao atelier o encomendante da estatueta, a fim de ver se a obra o agradava. Ao vê-la, o encomendante olhou-a com horror e recusou-a dizendo que a figura não era decente por ter os braços e uma pequena parte do peito nus, preferindo um daqueles modelos vulgares que se podia encontrar em qualquer cemitério. Assim, a estatueta deixou de ser reproduzida mas acabou por vir a ser exibida na Exposição Trienal de 1874. Depois disso, o modelo do anjo passou a pertencer ao canteiro Laurentino José da Silva.

 1875

Saudade – Estatueta em mármore de Carrara, pertencia a Francisco de Oliveira Chamiço. O modelo estava na posse de um Sr. José Victorino Damazio.

1876

Domingos de Almeida Ribeiro  – Trata-se de um busto cujo retratado era amigo de Soares dos Reis e professor do Liceu do Porto. A sua execução, em mármore, é considerada por muitos primeiro ensaio de naturalismo por parte deste artista.

Conde Ferreira – A estátua do Conde Ferreira, cujo mármore seria destinado à campa do benemérito da Cidade, no cemitério de Agramonte é colossal, com 2.5m de altura é, sem dúvida, uma das obras mais notáveis do escultor.

Depois de retirado do cemitério de Agramonte, onde estava muito mal tratado pelas intempéries, a escultura foi levada para o Museu Soares dos Reis onde, actualmente, pode ser vista, com o seu ar sereno e sorriso bondoso. Sobre a expressão que Soares dos Reis deu a esta obra alguém o advertiu de que não era igual à do Conde, ao que o escultor respondeu:

– Mas o Conde de Ferreira não era uma pessoa bondosa, amigo das crianças, trato fino, coração aberto à caridade?

– Isso era!

– Pois então este é o Conde de Ferreira.  

Ainda sobre a forma como o artista representou o Conde de Ferreira, Diogo de Macedo, em Soares dos Reis Estudo Documentado conta como o artista foi interpelado por alguém que estranhou ele ter dado tão bondoso aspecto, ao homem que acusavam de ter enriquecido como negreiro no Brasil ao que o artista respondeu que para a execução do corpo tinha seguido, quase fielmente, o modelo mais parecido com a imagem que o Conde tinha em vida mas que para a cabeça, tivera sempre presente, acima de tudo, o testamento admirável do benemérito, sem no entanto deixar de procurar a sua verdade fisionómica.

Conde de Ferreira

Conde de Ferreira

1877

Cristo Agonizante – Trabalho para uma Igreja em Vila Nova de Gaia.

Riqueza, Música, História e Trabalho – Quatro modelos de Estatuetas para o canteiro de Lisboa A. Moreira Ratto. Mais tarde foram as quatro reproduzidas em lioz e, essas reproduções, enviadas para o Brasil.

Riqueza, Música, História e Trabalho

Riqueza, Música, História e Trabalho

Emília Pinto Leite – Foi concluído o busto em gesso, mas o mármore ficou apenas esboçado.  

 1878

Francisco Pinto Bessa – Cconsiderado como um dos mais fortes retratos realizados por Soares dos Reis. Estava exposto na Sala de Sessões da Câmara Municipal do Porto.

Busto de Francisco Pinto Bessa

Busto de Francisco Pinto Bessa

Camões – Baixo-relevo feito por galvanoplastia.

Flor Agreste Em 1878 começou a modelar, em barro e em gesso, a “Flor Agreste” cujo mármore só concluiu em 1881. A modelo foi, segundo as fontes, uma vizinha de Soares dos Reis, em Vila Nova de Gaia.

Diogo José de Macedo Júnior fez a seguinte descrição sobre esta peça: O seu autor, que sabia escolher modelos, copiou efectivamente, sem preocupação de espécie alguma, a cabeça da linda e meiga carvoeira que se lhe deparou, juntando ao barro em que tão primorosamente a modelou, o cobre do real, no dizer de Alves Mendes, com o ouro do ideal .

Na Exposição Centro Artístico Portuensede 1881 foi adquirida pela quantia de 250$00 reis  O busto passou a pertencer a Rebello Valente e o modelo era propriedade de Diogo José de Macedo. Mais tarde o busto passou a ser propriedade do coleccionador de Arte, Tomás Archer de Carvalho, posteriormente formou-se uma comissão de admiradores do Escultor que angariou fundos para a sua aquisição, e o doaram ao Museu Municipal, hoje Museu Nacional Soares dos Reis.”

Flor Agreste

Flor Agreste

1879

Mercúrio e Comércio – Modelos para canteiros, destinados a uma fábrica de cerâmica.

A Saudade – Trata-se de um novo modelo, este para canteiro.

 1880

Camões – Este busto monumental de Camões foi criado para comemorações do centenário do poeta e foi esculpido em apenas 4 dias, com a colaboração de Marques de Guimarães, para o Ateneu Comercial do Porto.

Busto de Camões

Busto de Camões

S. José  e S. Joaquim  – Imagens em granito criadas para fachada da Capela do Palacete dos Pestanas, no Porto, que era propriedade do Sr. José Joaquim Guimarães Pestana da Silva. Os modelos em gesso pertenciam à A.P.B.A.. Soares dos Reis executou também para esta capela vários modelos de ornamentação.

 1881

Filha dos Condes de Almedina  – Estatueta em mármore de Carrara, concluída em 1882, representa a Filha dos Condes de Almedina, os quais eram os proprietários da obra. É a figura de uma criança com um rosto quase angelical, cuja delicada roupa está repleta dos mais requintados pormenores, com uma reprodução finamente trabalhada e minuciosa das rendas. O modelo da estatueta era propriedade do autor e estava exposto no C.A.P.. Esta peça, que também era conhecida por Primavera, é actualmente propriedade do MNSR, onde se encontra patente ao público.

Filha dos  Condes de Almedina

Filha dos Condes de Almedina

Joaquim Pinto Leite – Trata-se de um busto em gesso cuja obra foi recusada pelo retratado.

Narciso e a Morte de Adónis  – Foram as provas que o escultor teve que realizar no concurso para o preenchimento da vaga de Professor de Escultura da Academia Portuense de Belas Artes.           

Narciso (gesso)

Narciso (gesso)

Marques de Oliveira – Este busto, do seu amigo e professor da APBA, foi modelado para servir de recordação da vitória, acabada de obter, no concurso para professor da dita Academia.

 Marques de Oliveira  (gesso)

Marques de Oliveira (gesso)


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Pensionato: de Paris a Roma

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Paris:

1868

Academia Sentada Foi a primeira prova que enviou enquanto pensionista em Paris. Cópia do modelo vivo, em gesso, executada sob a direcção de Jouffroy e assinada por este.

Academia, 1868

1869

NegroFoi obra que lhe permitiu a admissão na École Imperiale et Speciale dês Beaux Arts de Paris. Modelo nu sobre uma placa, executada sobre a direcção de Jouffroy (fiel ao neo-classicismo).

Aquiles entregando Briséis Baixo-relevo executado sobre a direcção de Jouffroy.

Aquiles entregando Briseis, 1869

Le tireur d’épines Cópia, executada sobre a direcção de Jouffroy.

Le Tireur d’épines, 1869

1870

Pescador  – Prova escolar, enviada para a Academia, rubricada por Jouffroy.

Pescador, 1970

Obra de Soares dos Reis durante os meses que mediaram entre o regresso de Paris e a partida para Roma:

 1870

Carro de Apolo – Baixo-relevo circular no centro do tecto, em estuque, representando Apolo num carro tirado por quatro cavalos. Este trabalho foi realizado para a casa do Sr.
Joaquim Teixeira de Campo, em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. Sabe-se que ainda em 1887 este baixo-relevo já tinha sido bastante alterado, possivelmente pela acção de obras de restauro realizadas “pelas ferramentas dos estucadores, que ainda não abandonaram o bárbaro costume de rapar toda a superfície de uma escultura até a deixar cheia de vincos e arestas”[6]. Actualmente faz parte da colecção do MNSR.

Carro de Apolo, 1970

Coração de Maria – Imagem em madeira policromada destinada a um Templo de Guimarães. Quando esta imagem foi levada para o seu destino, os crentes que frequentavam a Igreja começaram a implicar com ela dizendo que não se parecia em nada com as outras Santas e por isso pediram a Soares dos Reis que a retocasse e lhe desse um ar mais divino. O escultor fez-lhes a vontade mas não foi o suficiente para agradar os paroquianos que continuavam a achar que a imagem não parecia suficientemente divina. Essa falta de divindade fazia com que os paroquianos fossem perdendo fé nela e na sua capacidade de realizar milagres, o que os levou a desfazerem-se dela. A Imagem andou em leilão pelas sacristias, acabando por ir parar a lugar desconhecido.

Tempo– Trabalho para canteiro, foi modelado em gesso e representa uma alegoria do Tempo.

General João José de Lima Costa –Busto em barro cozido.

Trabalhos de Soares dos Reis durante o pensionato em Roma:

1871

Domingos Sequeira – Trata-se de um retrato em medalhão, feito em mármore, durante o pensionato em Roma. Para este retrato serviu-se de uma reprodução, em ponto pequeno, do busto do artista, feito pelo seu amigo Tenerani.

1871/72

O Desterrado Em Roma começou a sua estátua O Desterrado que, depois de modelada, deixou em Roma, partindo para visitar outras terras italianas. Segundo o escultor Diogo de Macedo (1889-1959), esta sua saída de Roma deveu-se ao facto de que com a modelação do Desterrado Soares dos Reis “Tinha desabafado uma grande mágoa e precisou de ir respirar novos ares”.  Estátua de grandeza natural, em mármore de Carrara de 1ª qualidade – foi a sua prova de aproveitamento do pensionato nesse país. É a sua obra mais conhecida mas também uma das que mais dissabores lhe trouxe.

Nos últimos meses de 1871 foi informado da suspensão das verbas que eram dadas aos pensionistas no estrangeiro  e que estes deveriam regressar a Portugal até ao fim do mês de Outubro desse ano. Para tal era concedido, a cada um deles, a soma de sessenta mil reis para que pudessem fazer a viagem de regresso. Isto foi um grande problema para Soares dos Reis, que já tinha gasto tudo o que recebera na aquisição do mármore para a realização desta estátua e das obrigações que contraíra com a mesma. Além disso, também já tinha dado início ao desbaste da peça e não a conseguiria terminar em tempo útil para cumprir as novas directrizes. Perante isto escreveu à Academia de Belas Artes solicitando que o seu caso fosse apresentado ao Corpo Académico e ao Conde de Samodães, Francisco de Azeredo Teixeira de Aguilar (1828-1918), na esperança que estes pudessem interferir na decisão tomada pela Comissão Financial do Governo Português em Londres.

Entretanto foi vivendo conforme podia, com o pouco que lhe restava, até  lhe aprovarem o prolongamento da estadia em Roma, recebendo novos subsídios para a conclusão da obra final como pensionista.

Com o prazo alargado, mas ainda assim impossível de satisfazer, não conseguiu terminar a obra em Roma enviando-a, ainda inacabada, para a Academia Portuense de Belas Artes[1]. Como auxílio para a finalizar tirou moldes, ao natural, do modelo vivo, deixando os gessos em Santo António dos Portugueses. Esta é a versão mais divulgada, aparecendo em quase todas as biografias do artista, no entanto, Mons. José de Castro, no artigo Soares dos Reis em Roma, com o qual participa na obra de homenagem Soares dos Reis: in Memoriam, conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos, dando a entender que o escultor teria conseguido terminar a obra ainda em Roma enviando-a, já concluída, para a A.P.B.A.

Em 1881 levou a obra à Exposição de Madrid onde ganhou a 1ª medalha e foi agraciado com o grau de cavaleiro da ordem de Carlos III. Foi nessa altura que, através de um jornal de Lisboa, foi lançada uma campanha, que negava a autoria d’ O Desterrado a Soares dos Reis. Provar que tudo de que o incriminavam não passavam de falsas acusações,  foi algo que rapidamente conseguiu fazer através de documentação que pediu que lhe enviassem de Roma, mas nunca conseguiu esquecer ou perdoar esta infâmia perpetrada contra si.

O Desterrado, 1872


 [1] Mas a estátua para cujo mármore havia concedido, segundo a praxe estabelecida, os invariáveis 360$000, não estava ainda concluida no princípio de Março de 18 de 1872. Precisava de mais tempo e o governo declarou que não dava mais um vintem, suspendendo-lhe em Março a pensão habitual de 50$000 e mandou-lhe 60$000 para o regresso a Portugal. Mesmo desamparado, continuou a trabalhar. A 1 de Junho de 1872 o Conde de Tomar vem em seu auxílio junto de António Rodrigues de Sampaio, que a 23 de Julho resolveu pagar-lhe as pensões atrasadas e as que fossem precisas. Mas Soares não quer mais de 20 dias para a conclusão da estátua desejando somente que o poupassem à despesa do transporte para a Academia Portuense das Belas-Artes. (…) A estátua conclui-se rápidamenete comassombro geral. A mesma veio para Portugal e o gesso deixou-o de presente e lembrança ao Instituto de Santo António. in Mons. José de Castro (s.d.);Soares dos Reis em Roma,  Soares dos Reis: in Memoriam.

Desenho e Pintura

Em muitos dos desenhos que Soares dos Reis nos legou evidencia-se uma tendência de, com o esfuminho a lápis, alcançar o necessário relevo, o que é revelador de uma característica mais de pintor do que de escultor, apontando para a hipótese de que se este tivesse enveredado pela pintura seria de igual modo um excelente artista. Mesmo nos pequenos apontamentos que deixou é fácil notar que era um notável desenhador.

Fez o retrato de ambos os pais, sendo o do pai de tal perfeição que, numa visão menos atenta, passa por fotografia.

Colaborou com desenhos para ilustrações de várias obras, como a revista O Occidente;

Fez o desenho para a capa do D. Jaime, de Tomás Ribeiro, para uma edição popular feita pela antiga casa Moré;

Para Os Lusíadas, edição da Imprensa Nacional, contribuiu também com vários desenhos:

_Camões (estampa do título),

_Concílio dos Deuses (1º canto),

_As Nereides (2.º canto),

_Assassínio de D. Inês de Castro (3.º canto),

_O Velho da praia do Restelo (4.º canto)

_A estampa Assalto a Veloso (5.º canto).

A edição desta obra data de 1878 mas só foi concluída e posta à venda em 1880, ano da comemoração do tricentenário de Camões. Foram vários estudos que o artista fez antes de chegar aos desenhos definitivos, os quais ainda existem, pelo menos alguns deles, no M.N.S.R.

Uma das recordações que Ricardo de Macedo aponta no texto que escreveu para o álbum em Soares dos Reis: in memoriam, remete à época em que, ainda criança, num dos pic-nics em que Soares dos Reis acompanhou os Macedo, se afastou do grupo, após ter comido qualquer coisa, e sentou-se numa rocha que se encontrava perto. Ricardo, inquieto pela ausência do artista, foi ter com ele. Soares dos Reis pintava, e ao reparar nele, repreendeu-o: Anda, vai para o teu lugar; quero que fiques aqui – indicando o pequeno cartão em que trabalhava os pincéis. Decorridos dias mostrou a Ricardo o que havia estado a fazer, era ele, Ricardo, de bibe, levando à boca, com a mão, uma asa de frango… Esse quadro acabou por se perder e nem o retratado sabia do seu paradeiro.

Em 1885 fez um retrato a lápis de D.ª Amélia Aguiar de Macedo, sua noiva, e nesse mesmo ano retratou praticamente toda a família. Desenhou D.ª Amélia de Macedo, avó da sua esposa; os cunhados D. Laura de Macedo e Fernando Aguiar de Macedo; o seu grande amigo e tio por afinidade, Diogo José de Macedo Júnior; o sogro, Camilo José de Macedo, de quem fez um retrato na Praia dos Lavadores; e ainda os seus parentes ou «familiares» por afinidade, D. Maria Teresa Ripamonte Campano Damásio, D.ª Elvira Beatriz de Macedo Damásio e D.ª Madalena Damásio, esta ainda criança.

Sabe-se que também retratou, a lápis, Alfredo José da Silva Cunha, o conhecido janota que ditou a elegância da baixa portuense.

Durante o período em que foram pensionistas em Paris,  pintou o retrato de Sardinha, o qual está assinado e datado: – Paris, 1870. Entre esse ano e o anterior, pintou também um quadro intitulado O curativo de S. Sebastião. O retrato foi pintado do natural e é uma obra vigorosa, que põe em destaque o busto num fundo em que dominam os tons de crepúsculo. O Santo está pálido, quase desfalecido, com o tronco meio levantado e amparado por uma mulher, tendo a cabeça em esforço e reclinada sobre o ombro direito, enquanto a outra mulher ajoelhada, procede ao curativo dos ferimentos. Para a obra, que teria 1.20m sobre 1.50m, serviram ao artista de modelo, para as figuras femininas, as irmãs de um pintor, de nome Silva. A sua composição é marcada por um colorido da tonalidade sombria e triste, em que dominam o negro e os gris que, segundo Alfredo Cândido em Soares dos Reis o Pintor, recorda o estilo, a suavidade encantadora das obras de Courbet. Em 1933, havia notícia de estas duas obras se encontrarem em Algés, em poder de um Sr. Adolfo Mengo Sardinha, filho do arquitecto J. Geraldo Sardinha.

Havia alguns trabalhos em poder da viúva de Soares dos Reis e um tecto pintado em casa dum amigo do célebre artista.

Nos anos 30, do séc. XX havia, na propriedade dos herdeiros de Henrique de Sousa Braga, uma pintura a óleo representando uma vista do mar, pintada na praia de Lavadores, que era da autoria de Soares dos Reis.

Também o clube de Vila Nova de Gaia possuía uma aguarela, pintada pelo Mestre, Rua do Agueiro, que arremataram no leilão da Sociedade Talma, em 4 de Abril de 1886, por 2$500 reis.

São também de sua autoria:

_Nympha do Crocodilo (esboceto a óleo);

_O retrato do arquitecto lisboeta José António Gaspar (óleo sobre tela, com a dedicatória “Ao Am.º Gaspar off. Soares dos Reis 1876);

_A Morte de César (esboceto a óleo),

_Uma paisagem do Aqueduto da Serra do Pilar (óleo sobre tela, com uma dedicatória “Ao seu amigo Gaspar A.S. Reis”);

_Marinha (óleo sobre tela);

_Cabeça de mulher (aguarela);

_José explicando os sonhos (óleo sobre folha, datado de 1880);

_Nimpha (óleo sobre tela, assinado “A. S. Reis 1881”);

_Camélia Branca (óleo sobre cartão, com a dedicatória “ Off ao seu Amigo José David”);

_Copo com Flores (óleo sobre cartão, datado de 1886)

Naufrágio do Vapor Olga, Revista Occidente

Retrato de D. Amélia Aguiar de Macedo Soares dos Reis, esposa do artista

Pagem, estudo para os Lusíadas

Aqueduto da Serra do Pilar


O Centro Artístico Portuense

Locais onde esteve instalado o C.A.P.

Em 1879 fez parte, juntamente com um grupo de outros artistas, estudiosos e beneméritos das artes (entre os quais figuram Marques de Oliveira, Henrique Pousão, Joaquim de Vasconcelos, Thomaz Augusto Soller, entre outros) da Criação do Centro Artístico Portuense (C.A.P.), cuja presidência veio a assumir.

Foi o sócio nº 1 do C.A.P., o seu principal fundador e um dos seus maiores impulsionadores.

Apesar da data de fundação remontar a 1879, só aparece como instituído a 22 de Janeiro de 1880, o que se poderá dever ao facto dos Estatutos[1] só terem sido apresentados nessa data ao governador civil, que os aprovou a 26 de Junho de 1880.

A sua primeira morada terá sido num edifício da Rua de S. Lázaro, mas um rápido crescimento levou a que se instalasse no primeiro andar do n.º 54 da Rua do Moinho de Vento, onde se manteve até à sua extinção, em 1893. O espaço era composto por um quarto e duas salas.

Fundado para dar expansão às Belas Artes, pretendia promover o desenvolvimento intellectual e artistico dos seus associados e contribuir, quanto em suas forças caiba, para o estimulo e propagação do gosto tanto pelas artes plásticas, como pelas industriaes, no paíz[2]. Para tal propunha-se levar a cabo um significativo conjunto de iniciativas tais como: criar um atelier com modelo vivo e outros elementos de estudo; organizar palestras e conferências sobre assuntos de arte; publicar um periódico, ilustrado, de Belas Artes; organizar digressões artísticas; realizar, anualmente uma exposição-bazar de belas artes; criar um gabinete de leitura e uma galeria de obras de arte e corresponder-se com institutos de Belas Artes, quer nacionais quer estrangeiros.

O atelier para o estudo do modelo vivo, ficou instalado na sala maior das traseiras, dispunha de 30 lugares para desenhadores e funcionava com regular frequência. O seu êxito foi tal que, os seus alunos chegaram a participar nas exposições trienais realizadas pela Academia Portuense de Belas Artes.

O art. 16.º do Regulamento Interno, pretendia que, logo que as circunstâncias o permitissem, fosse acrescentado ao atelier um curso de desenho graduado e de modelação, que beneficiasse quer o ensino elementar artístico quer o da arte aplicada à indústria. Tal acabou por não se concretizar, por falta de meios.

Em Janeiro de 1882 o C.A.P. fez circular um prospecto onde vinham explicados os princípios programáticos de A Arte Portugueza, era o nascimento do primeiro periódico português inteiramente dedicado às Belas Artes.

As visitas a monumentos eram, maioritariamente, orientadas por Soares dos Reis, havendo informação sobre as que ocorreram ao Mosteiro de Leça do Balio, Paço de Sousa, Castelo da Feira, Castelo de Guimarães, etc.

Na primeira exposição-bazar, realizada no Palácio de Cristal do Porto, em 1881, foram apresentados projectos, elaborados pelo Conselho Técnico do Centro, para o restauro das portas (principal e lateral) da Igreja de Cedofeita e da porta principal do mosteiro de Leça do Balio.

O Gabinete de Leitura, segundo o catálogo do Centro, possuía muitas e variadas obras – tais como Phidias de Beulé e a Anatomie des formes du corps humain de Fau, ambas de Soares dos Reis – às quais se vieram juntar muitas outras que eram adquiridas em permuta com a Arte Portuguesa. Nas despesas do Centro encontra-se, frequentemente, referência ao pagamento de “jornais franceses” e “revistas ilustradas”, bem demonstrativos da vontade de estarem actualizados sobre os assuntos da Artes além das fronteiras.

Também a Galeria Artística que o Centro foi criando, com os trabalhos e ofertas dos seus associados, foi aumentando com algumas ofertas de Soares dos Reis.

Apesar de em 1881 o C.A.P. contar com apenas 49 sócios, já tinha conseguido levar a cabo quase todos os objectivos que constavam dos Estatutos: já estava criado o atelier de estudo; promoviam digressões artísticas; havia um Gabinete de Leitura e uma Galeria Artística; eram realizadas conferências sobre arte; já estava a ser publicada a revista Arte Portuguesa e organizavam exposições-bazar.

O C.A.P. vivia quase exclusivamente das quotas dos seus associados – que, segundo os registos, chegaram aos 196 [3] –   e por isso, para conseguir fazer face a todas as despesas contava com o que conseguisse arrecadar com as exposições de Belas Artes que, ocasionalmente, organizavam. Apesar de todas estas dificuldades, em 1882 conseguiram fechar o ano com saldo positivo!

Todos estes feitos, em tão pouco tempo são bem demonstrativos de como o Centro Artístico conseguiu corresponder aos propósitos para que fora criado.

Mas, em 1887, Soares dos Reis, que não se encontrava bem há algum tempo, acabou por abandonar o Centro.

Poucos dias após o falecimento do escultor, Ramiro Mourão, sabendo que na casa-oficina do Artista se encontravam valiosíssimos testemunhos da actividade do Centro, incitou um dos seus discípulos a reuni-los e guardá-los para não se perderem.

Apesar de um início profícuo, o declínio do Centro Artístico começou a tornar-se evidente em 1892, ano em que o registo de sócios não mostra mais de 19 nomes[4].

As últimas páginas do livro de registo dos sócios, que data de 1893, já refere apenas 13 nomes.


[1] Para aceder ao ficheiro com os Estatutos e Regulamento Interno do Centro Artístico Portuense seguir:  http://archive.org/details/estatutoseregula00port

[2] Estatutos do Centro Artístico Portuense, Capitulo I, O Centro e seus fins, p. 7.

[3] Machado, Carlos Diogo de Villa-Lobos (1947), Soares dos Reis e o Centro Artístico Portuense, p. 18.

[4] Machado, Carlos Diogo de Villa-Lobos (1947), Ibid., p. 99.